Ensaio Sobre o Amor

Muito já foi dito sobre o amor, e todas as possibilidades de amar. Não vejo muito o que acrescentar quando se fala de amor em seu sentido mais poético. O amor pode ser uma armadilha biológica como nos faz crer Shopenhauer, ou algo mais sublime e despretensioso como o amor ao próximo pregado por Jesus, ou ainda o amor catastrófico e heróico Hollywoodiano de Titanic, ou quem sabe o amor neurótico e racional de Woody Allen. O fato é que o amor se tornou uma commoditie, um bem, algo palpável, concreto, negociável. Todos têm uma fórmula que supostamente nos encaminharia ao amor perfeito, ao amor feliz, ao sublime, ao elevado nível de amar. Esse amor não me interessa. Me interessa um tipo de amor que não se expõe a esse tipo de definição. O amor que “não ousa dizer seu nome”, como na poesia escrita pelo amante de Oscar Wilde, é o que me interessa. Esse amor vai contra as leis de Darwin de evolução da espécie, contra a teoria de Shopenhauer do impulso vital da perpetuação. Desse amor que por séculos foi exaltado e reverenciado por filósofos gregos para em seguida ser excomungado pela religião. É esse amor que me faz escrever essas palavras num ímpeto de entender o que nos move, de entender o que me faz optar por um pênis e não uma vagina. Por que vou contra o que todos assumem ser a natureza?

Meu instinto biológico de procriação, embora inconsciente, parou de funcionar? Pâne no sistema? Pode ser. Mas prefiro acreditar que estão a pleno vapor. Isso eu digo pelo simples fato de que eu continuo buscando nos meus parceiros homens as mesmas características que busquei quando me casei com minha ex-mulher e cumpri meu papel na cadeia reprodutora. Como dizem que buscamos parceiros que possam juntar seus genes aos nossos para aprimorarmos os descendentes, eu buscava em meus parceiros femininos, genes de olhos claros. Não percebia esse padrão, mas sempre achei mais atraente olhos claros. Essa era uma forma de enriquecer meus genes, portanto, hoje tenho um filho de olhos azuis. Levando isso em conta, percebo que esse padrão não cessou com minha “opção” por parceiros masculinos. Continuo me interessando por homens de olhos claros. Se o amor fosse apenas um desejo inconsciente de perpetuar a espécie, como afirma Shopenhauer, por que ainda escolho homens de olhos azuis? Obviamente, até meu inconsciente sabe que não haverá perpetuação da espécie! Então por que?
Acho que o amor não é um truque da natureza pra mantermos nossa meta evolucionista. O objetivo não é um ser que virá através da reprodução física. E sim um ser duplo. O instinto está mais para o da sobrevivência individual do que a reprodução. Quem será o parceiro ideal que irá me proporcionar uma viajem mais agradável para que minha sobrevivência, nesse pequeno espaço de tempo cósmico que estou passando aqui na terra, seja a mais intensa possível? Quem irá preencher minhas insuficiências com qualidades opostas às minhas? Racionalmente sabemos nossas deficiências e procuramos parceiros com habilidades que não possuímos. Mas por que os gays fazem isso se não haverá um produto desse amor a ser gerado por 9 meses? Por admiração!
Quando gostamos de iguais, inevitavelmente nos colocamos diante de um espelho. Um espelho onde nossas falhas estrondosamente gritam por atenção. Nos vemos no outro, muito mais do que se esse sexo fosse o oposto. Nos conhecemos mais, nossos pontos fracos e nossas áreas erógenas são facilmente exploradas pelo outro. Sabemos as reações biológicas de cada ponto do nosso corpo. Esse espelho é cruel demais. Não dá pra ter meio termo. Meio saber. A verdade é nua e crua. Os gostos se equiparam, se equivalem de tal forma que um se reconhece no outro, ou se estranha imediatamente. O que além de uma cruz, pode ser uma dádiva. Saber mais do outro e das reações do outro é algo corriqueiro e de suma simplicidade para um gay. Então volto onde eu queria chegar. O que nos faz amar alguém do mesmo sexo? Não é, definitivamente, embora acredite que haja alguma força nisso, o instinto biológico de reprodução. O que resta é a admiração. A vontade de ser o que o outro é. Se o outro tem a barriga mais dividida que a minha, isso me atrai. Porque? Volto ao instinto de melhorar a espécie. Ele tem menos barriga que eu, o olho é claro, etc. Mas não acho que isso explique o que ocorre hoje em dia, talvez em 1800, sim. Parto do principio que somos atraídos pelo que julgamos ser melhor no outro e pior em nós. Logo, amor é admiração profunda por alguém.
Uma admiração que nos leva a acreditar que junto com essa pessoa, estaremos mais equipados para enfrentar o mundo contemporâneo e suas armadilhas estéticas perfeitas e indestrutíveis. Para não sermos massacrados pelo sistema de consumo em massa de uma estética de beleza e padrão de status, nos vemos às vezes admirando pessoas por sua classe social. Isso é uma distorção do que é admirar alguém. Uma pessoa jamais será o que ela tem. Aliás, é muito provável que a sua posição social a torne arrogante, prepotente e julgadora de valores já estragados e apodrecidos. Somente pessoas sem auto-estima, e com nenhum valor humano, se vêem atraídas por riqueza. Para isso tanto faz ser gay ou hetero. A admiração ao termo “Bem –Sucedido” tem que ser abolida imediatamente e substituída pelo termo “Bem –Resolvido”. E bem-resolvido será aquele que melhor entender suas idéias, sua origem, seu papel no universo, seu desprendimento dos valores errôneos da sociedade. Esses serão sempre dignos de admiração. É através dessa admiração que um novo ser surgirá dessa união, o ser chamado casal.
Quando o casal se torna um ser vivo e independente, o amor estaria pleno. Essa busca que talvez seja impossível, é o que nos move. Não importa a opção sexual. No plano racional queremos isso, mas não seria exatamente isso a maior ilusão desde a invenção da palavra amor? Não é justamente nessa hora que a privacidade do outro e seu próprio senso de individuo é destruído ao ponto do parceiro não se interessar mais? A falta de individualidade não é a principal fonte de desprezo que se pode sentir por um ser humano? Portanto fica inviável o amor, pelo menos o amor da outra metade. O amor do ser um só. O amor da unidade. O amor sustentável é o amor “duplo” onde um não abre mão do que é, das suas crenças, dos seus interesses, dos seus defeitos e de sua dor, e o outro não o força a nada, eles juntam suas qualidades e deficiências para sobreviver ao mundo, aos outros, à inveja alheia, ao clima, à vida. Essa parceria é viável, é saudável, é concreta, pode ser conquistada. Mas é mais fácil ganhar na loteria. O cotidiano está sempre ali esperando pra abocanhar esse amor. Seja no cagar de porta aberta ou pendurar a calcinha no chuveiro, ou nas perversões sexuais do parceiro, que como um “Jean Genet” podem levar o outro a se sentir um objeto na mão do seu amante.
Até que ponto o amor é perverso? Até que ponto sexo e amor são compatíveis? Ou até mesmo coexistentes. Quando faço amor e quando é sexo? Linhas tênues que podem ser imperceptíveis ou ter um verdadeiro abismo entre elas. Quando gozo na boca de meu parceiro, isso seria amor? E a procriação? Será que isso o ofende? Será que o estou subjugando a um desejo de dominação de minha parte? Isso também é amor? Temos que urgentemente reformular nossa definição de amor. Com amor vem inevitavelmente o sexo! Com ou sem intenções de procriar. Será o amor algo que convive com as fantasias sexuais? Tem que ser! Senão não existe amor! Ninguém, pelo menos que se preze, ou que me interessa relatar aqui, faz só amor na cama. Não têm quem tenha seu pau chupado (falo de pau com a maior naturalidade, como fazia o filosofo Montagne em 1500, pois faz parte do que eu sou, e como ele mesmo frisava: “nos iguala aos animais”, isso sem querer nos diminuir, pelo contrario) que não pense algo do tipo: “Chupa, vai, sua cadela ( ou viado), quero gozar tudo em você!”.
Onde se encaixa o amor nos padrões pré-estabelecidos do termo? Não se encaixa! Isso gera uma frustração e uma culpa totalmente desnecessárias. Olha o exemplo do pobre Clinton que desencadeou uma tentativa de Impeachment. Uma sociedade inteira, que se diz a mais civilizada do mundo, quis a cabeça do seu presidente por causa de uma mamada extraconjugal, invadindo a privacidade de um ser humano e o julgando em rede mundial. É PATÉTICO! O ponto que chegamos em relação a sexo é deplorável. Vêm dessa culpa, dessa noção de amor fiel, monogâmico, em que o corpo e a matéria são mais importantes que o sentimento. Isso é uma deturpação total do amor. Fidelidade sexual não tem nada a ver com amor. Pode ser relacionada ao medo apenas. E se existe medo não existe amor verdadeiro. Amor talvez também não exista, como eu posso não existir, nem o Universo, mas supondo que isso tudo exista, tenho certeza que não depende do corpo e sim da mente. Amor é um fenômeno mental. Faça as sacanagens que seu parceiro necessita para chegar ao orgasmo e não confunda as coisas. Seu limite será o que você consegue fazer e continuar admirando seu parceiro. E seja feliz. Ou não, se isso não te importar, porque já disseram antes: “Felicidade é pra gente burra”.
Boa sorte!
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5 Responses to Ensaio Sobre o Amor

  1. Alezandra Klabin says:

    |_♬_Leka_Klabin_♪_: nooossa!amei o que você escreveu no blog!!!beeeijo na bundaa!

  2. Paulo Braccini says:

    Caracolis … esta sua contextualização sobre o AMOR é primorosa … merecia uma maior divulgação … ajudaria a muita gente de mente curta …ops: acho que já te aluguei demais por hoje aprovando ou não meus coments … rs … vou continuar viajando por aqui mas com menos registros … vc já sabe o que estou sentido aqui … seguindo e linkado …;-)

  3. Júlio Rique Neto says:

    Hi there,
    Vendo lendo com muita curiosidade e curtindo bastante seus blogs…parabéns! Neste você fez muito sentido ao dizer que: “O instinto está mais para o da sobrevivência individual do que a reprodução.” …… Ah, e no tocante a força do cotidiano no amor, cagar de porta aberta é desastre completo…consegue abocanhar um grande naco da felicidade conjugal………mas como felicidade é pra gente burra!

    Estou buscando o post q vc falou, se não me engano, “o dia q descobri que era gay” (não é o Eu nasci gay)…não encontro!!!
    Abs.
    Júlio

  4. clecio says:

    ouvi dizer que é importantea mar mesmo que não seja correspondido.Todo esse amor deus vai repor ,guando cruzarmos o véu de izis.

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