Papai é gay, meu filho…

Como falar essa frase? Como alguém pode explicar algo tão complexo como a sexualidade humana a uma criança de 8 anos? Essas perguntas precisavam de uma resposta e eu era a pessoa certa para repondê-las. Eu, no auge da minha luta por dignidade e igualdade, cheio de sonhos de um mundo de igualdades… Quem melhor do que eu, aos 34 anos, para encenar essa situação, tão típica das novelas das oito? Eu tinha respostas para todas as questões gays do momento. Tudo era tão simples: eu era gay, já tinha me assumido para a família, para os amigos, para a sociedade, para o porteiro, para o cachorro, papagaio, as paredes, o vermelho… e a ansiedade começou a tomar conta de mim. Como contar para o meu filho? E se ele me odiar? E se ele virar viado por isso? E se…? Um milhão de hipóteses se estapeiam para serem a escolhida da vez. Mas eu não me abalo, afinal, eu enfrentei ex-mulher, pai , mãe, periquito, porteiro, a cor vermelha…

Era uma tarde diferente, era uma tarde planejada, preparada para o teatro. Havia barulhos inquietantes, sons de patadas no paralelepípedo. Estávamos em Petrópolis, havia um ar de realeza na cidade que de certa forma legitimava as conversas; um certo clima de arrogância real que nessas horas se faz imprescindível. Precisava ser forte, ter uma postura de pai. Olhei para os olhos azuis da minha cria e me senti em paz, sem culpa. Começo o diálogo:

-“Você acha que sua mãe pensa que eu sou gay?” pergunto tentando um link com o tão proibido assunto.

-“Acho que sim pai, ela veio me perguntar se eu achava.” responde inocentemente meu filho.

-“E se o papai fosse gay? Teria problema?”

-“Não pai, claro que não.”

Eu me encho de orgulho de ter gerado uma criança tão sem preconceitos, tão bem educada ao ponto de entender que as pessoas têm o direito de ser o que são, que não me contenho e como uma lança atiro a verdade em cima do garoto.

-“Pois o papai é gay. “

silêncio…

Seus lindos olhos azuis que antes me acalmavam como um oceano, passam a me inquietar quando deles brotam lágrimas de pura emoção. Me apavoro, perco o controle da situação, derrapo na curva, forço o volante e pergunto:

-“Porque você ta chorando meu filho?”

Sem pestanejar ele diz:

-“Porque vão te sacanear papai.”

Preciso comentar essa resposta dele: Existe algo mais puro do que isso? Nossas mentes podres de adulto jamais criariam a hipótese dele pensar em me defender. Ele era a criança. Quem precisa ser defendido é ele!!! Não, sua preocupação era legítima, pura, de uma criança que não foi ainda bombardeada pelos amigos, pela mídia e pela sociedade. Ele não teve tempo de ter o preconceito enraizado na sua alma. Não ficou chocado, não ficou decepcionado, nada! Ficou preocupado em me defender, em me poupar de virar chacota. Nunca tinha ouvido palavras tão lindas de uma criança. Me recuperei e perguntei:

– “Alguém me sacaneia agora? “

-“Não.” respondeu ele.

-“Então… todo mundo sabe, menos você.”

-“E porque você não me contou antes?”

-Porque já é antes. Você só tem 8 anos!

Bem, estou relatando uma das passagens mais intensas da minha vida. Desde então nunca ouvi uma palavra dele que não fosse para me dar força. Ele já está com 14 anos e continua sendo um amigo, filho e colega maravilhoso. Conto isso para acalmar pais que estão na mesma situação em que eu estive e dou um conselho: Conte durante a infância. Na adolescência o preconceito pode já ter corroído a pureza necessária para um filho entender isso de um pai. Boa sorte!

Obs: Esse post é de 14/03/2006, mas só agora, depois de 2 anos, resolvi divulgar esse blog. Por isso apaguei e o repeti aqui hoje. Nesses 2 anos só o havia mostrado para o meu filho e alguns amigos muito íntimos…

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11 Responses to Papai é gay, meu filho…

  1. Bryan says:

    Fico otimo paizão!!! TE AMO PRA SEMPRE!!!Beijos!

  2. Mateus Madeira says:

    Gosto de tudo que escreve, sempre muito inteligente, e persuasivo, em particular, o que esta postando, as histórias estão prendendo a atenção e isso é muito importante pra que todos possam entender um pouco do seu drama e assim quem sabe mudar um pouco o conceito do que é ser homossexual… Parabéns e continue…Mateus Madeira

  3. jefferson says:

    oi meu nome e jefferson tenho 16 anos fasso 17 esse ano queria te contar um pouco da minha vida e ver se vc me ajuda minha primeira namorada era uma menina e eu tinha 12 anos e ela tinha 15 eu gostava muito dela namoravamos escondidos ficamos juntos durante 2anos ai foi quando nos nus separamos ela tinha que voutar para a casa dela pq ela morava com a tia (mas isso e outra historia)então foi ai que fiquei muito triste pq ela tinha ido embora e me deixou mas entao foi aos 15 anos que eu me descobri foi entao que persebi que meu primo tinha enterese em mim entao me ariscando muito um belo dia quando meus pais sairao pq estavão indo comprar materias para reforma da casa eu fiquei para pintar o meu quarto então pedi a ajuda do meu primo ele aceitou ai ta eu fui na frente e depois ele veio comesamos a pintar eu ariscando de mais meu teto (meu pai e minha mae sao muito homofobicos)eu botei um chorte apertado e uma camiseta para ver a reaçao dele ai foi pasando o tempo etau ele me olhando de rabo de olho estavamos quase acabando ai meus pais ligarao disendo que eles iam demorar a chegar pq tinha acontecido um acidente na pista e o engarafamento era grande etaus. foi ai que eu aproveitei como ele ja tava acabando eu pedi para ele terminar para mim pq meus pais iao demorar e eu ia tomar banho ai ta eu deci as escadas e fui tomar banho no banheiro de baixo ai tranquei a porta da casa pq podia chegar augem ai entrei no banheiro e tirei a roupa e entrei no box para tomar banho mas a porta do banheiro deixei aberta eu tava le ne tomando banho no mair bem bom com a agua morna pensando nele se ele ia cair na minha armadilha ou não foi entao que escutei ele desendo a escada ai ele pediu para mim se podia faser xixi eu bobo nem nada deixei ele entrou levantou a tampa do vaso botou o penis para fora e comesou a faser xixi ai eu abri o box um pouquinho e fiquei olhando o penis dele era grande (pq ele tinha 18 e eu 15) ai foi quando ele olhou para o boxe me viu eu fechei rapido ele acabou ai ele falou para mim -quando acabar eu posso tomar banho.eu disse:-claro mas pq não vem logoe toma com migo asim e mas rapido e economico.ele disse:-tem certesa e se seus pais chegarem e pensarem besteira.eu disse:decha de ser bobo vem logo e outra meus pais vao demorar.ele veio tirou a roupa e entrou no box nos tocamos e fisemos sexo e taus tomamos banho e depois desse dia sempre fisemos sexo ate ele completar 20 anos e nao tocar mas no asunto e foi entao que fique sem ninguei ae queria muito achar um namorado mas tenho medo meus pais sao homofobicos e eu penso em conseguir um emprego e compra minha propia casa e ir embora mas nao consigo emprego pos sou de menor nao sou afeminhado e ninguem sabe de mim so meus 4 amigos (3 meninas e 1 menino que nao e gay) eu queria tanto uma luz saber oque eu faso se conto ou nao conto se eu contar oque vai aconteser saio a caça para encontrar um namorado ou nao ai sao tantas perguntas me o pior e quando passa auguma coisa gay na tv e eles ficao com raiva e disem coisa que me da vontade de chorar ajude o que eu faso da minha vidapor favor me responda:poraqui ou pelo meu msn:jefferson_155jg@hotmail.comja agradesendo brigado

  4. Papai Gay says:

    Jefferson, seu depoimento é muito importante para provar que adolescentes sabem seduzir, e muito bem… Aos 15 é mais ou menos a idade que isso desperta mesmo. Pelo visto vai ter lembranças disso mais tarde e vai rir muito, como eu faço. Quanto ao fato de você contar ou não para os seus pais, só você pode decidir isso. Mas, se você acha que não vão aceitar, e pelas minhas contas você já está com 17 anos, o que custa esperar mais um aninho para que você possa arrumar um emprego, sair de casa, e depois, contar, ou não, se você decidir por o fazer? O mais importante é cortar essa sua ansiedade! Relaxa, conversa com os seus amigos que já sabem, você não pode é se sentir sozinho, MUITA gente passa pelo que você está passando, inclusive eu. E sou SUPER feliz com a minha escolha hoje. Foi um prazer ter você aqui, e volte sempre. CALMA, vai tudo melhorar. bjo grande.

  5. Pingback: Religiosos pressionam e Dilma suspende “kit anti-homofobia”!!! | Papai Gay

  6. Parabéns, linda lição de amor e respeito.

    Beijos,

    Isabela – A Divorciada e A Noiva

  7. Evie says:

    Conheci o seu blog pelo da Paloma, mãe de Ciça e Clarice. O tema tá bombando por lá. Seu post me emocionou. Amor, olho no olho, sem meias palavras. Ingredientes infalíveis para o entendimento. Aprendi muito com você. Sorte para você e para os seus. Um beijo.

  8. Paloma says:

    Emocionante este relato, adorei!
    Que cara legal que deve ser o seu filho, viu?
    Vou linkar este texto lá no blog, tá? Mais pessoas precisam ler isso!
    Beijos

  9. Otavio Zini says:

    eu tenho uma história bem parecida tb contei a meu filho quando ele era muito jovem.
    Algumas pessoas pensam mas será que a criança esta preparada para saber? Quando elas estão preparadas? Infelizmente nos esquecemos de quando erámos crianças, as crianças estarão preparadas assim que lhes surjam as dúvidas e estas devem ser elucidadas de forma clara, direta e sem preconceito.
    Hoje em dia meu filho tem 21 nos nos damos muitíssimo bem, a decisão de contar cedo tem muita importância sim, antes que os preconceitos se enraizem, quando eu contei a meu filho e perguntei a ele se isso o incomodava ele apenas me disse: “porque me incomodaria? porque gostar de alguém poderia incomodar outra pessoa, eu sei que vc gosta de mim e isso não muda.” ele tinha 6 para 7 anos na época.
    Um abraço a todos e parabéns pelo site

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