Essa pergunta me persegue: "Como que você foi virar gay?"

Ok! Casei. Me formei. Morei fora. Abri firma. Construi uma família nos subúrbios da Califórnia. Vida dos sonhos? Talvez. Prisão? Conformismo? Adequação? Mais provável. Viver como se é esperado pode ser o único subterfúgio para aqueles que como eu são “diferentes”. Pode se tornar uma capa, um escudo, uma dupla personalidade. Mas, o que difere esse caso dos estudos clássicos é: Você controla as duas. Cria um botão de “switch”, que ao ser acionado condena uma à morte súbita temporária, para a seguir gerar a ressurreição da outra no próximo território ameno.

Foi assim que vivi por 22 anos, dos 8 aos 30. Começou quando percebí o quanto era “errado” sentir as coisas que meu corpo naturalmente berrava por atenção. Uma rejeição se apossou de mim e criou o tal botão. Eu matava o gay e inventava o hetero. Obviamente, o hetero nesses 22 anos teve uma longa e recorrente vida, enquanto o gay aparecia esporadicamente, sem deixar vestígios. Uma personalidade marginal, com sede de se entorpecer de vida, com tanta intensidade e verdade que me ejetava para longe do real. Me tornava um puto. Me fazia caminhar pelas ruas numa busca louca do desconhecido. Meu olhar era estritamente sexual. Bebia, ou melhor, me embriagava numa fúria secreta e interna, que sufocava o hetero social e libertava por um espaço nunca superior a 8 horas o gay sufocado transbordando de sexualidade. Eu ficava totalmente sem rumo, minha mira era péssima, eu tinha pressa, sede do que nunca havia bebido, nunca provado. Fome do proibido e por isso me enfiava sempre nas maiores roubadas. O pior antro da época era a Galeria Alasca. Pois era pra porta dela que eu ia. Eu, playboyzinho do Leblon, disfarçado de garoto de programa. Não tinha nome, mentia tudo. Não queria ver meu disfarce esfacelado nas mãos de um estranho. Quem eu era? Uma invenção. Um poço de desejo que precisava ser transbordado. E eu transbordava. Não tinha o menor pudor. Eu tinha o poder, eu decidia, transava com quem eu escolhesse. Obviamente nunca cobrei. Era tudo por prazer.

Mas esse prazer tinha seu preço. A culpa! O efeito do álcool não dura pra sempre. A realidade do dia seguinte se impõe como uma bomba. Explode no seu colo, voam estilhaços na cara dos teus pais, parentes, amigos. Como fingir, no dia seguinte, que nada havia acontecido e voltar a morar numa cobertura duplex da Delfim Moreira? Eu, o “Bom Partido”. O filho de um grande empresário do ramo de armamentos pesados militares, boa pinta, pegando as mais gatinhas da praia. Como entender esse desejo louco pelo mesmo sexo? Eu era um adolescente nos anos 80, e nessa época o legal era dar porrada em viado. Não tinha essa de ser politicamente correto, aliás, acho até que o politicamente correto da época era isso mesmo, sacanear, xingar, humilhar e bater em qualquer um do sexo masculino que demonstrasse qualquer tendência mais sensível ou afeminada. Existe um medo de gays que se manifesta nas mentes dos heteros que é difícil decifrar e ele se canaliza pela agressividade. Um medo que só pode ser de si mesmo, de seus próprios sentimentos. É tanto pavor de se enquadrar no perfil de um gay, de enxergar em si necessidades homoeróticas, que gera um desconforto tamanho em algumas mentes a ponto de se verem impelidas a destruir o que lhes é tão doloroso aceitar em si. Sendo que o correto seria se destruirem. Isso mesmo! Pegarem um pau e meterem na própria cabeça! Dêem com o carro no poste de raiva! Mas não destruam o outro por este lhe provocar um sentimento que, provavelmente, já existia dentro desse viado disfarçado de machão. É isso mesmo, quem bate em gay pra mim é viado (com toda a carga negativa que essa palavra carrega). Acho até que quem experimenta sexo anal não é necessariamente gay. Esses são até mais machos que qualquer porradeiro desses. Mas os que se incomodam a ponto de ter que agredir um gay só podem ser viados enrustidos. E falo isso porque, no auge da minha loucura de querer me enquadrar no mundão hetero, dei algumas vaciladas, eu era lutador de campeonato de Jiu-Jitsu, e também metia porrada em gays. A lógica dominante: “Dê porrada em gay e não tenha amigos gays, que você automaticamente é hetero”. Eu machucava o que doía em mim. Enganava-me, ao arremessar socos no meu reflexo. Os gays me injetavam de volta tudo que eu queria ser e não tinha coragem. Eu era um covarde!

Bom, acho que vocês já entenderam o que era ser gay nos anos 80. Pelo menos no Brasil. Portanto, fiquei dentro do armário mesmo. E não queria saber nem de dar uma espiadinha pra fora de vez em quando. Eu era esse viado enrustido! Não queria ser viado. Eu não era o que aparecia na TV, onde apenas caricaturas humanas eram expostas, também não era um Rock Star, sim, porque só assim era bacana ser gay. Eu era ninguém, era um jovem que queria tudo e nada ao mesmo tempo. Morria de medo de pegar AIDS. Não queria morrer por um desejo. Por mais forte que fosse, preferia a vida. Naquela época não se sabia direito como se pegava AIDS, logo, não quis arriscar. Tive uma longa conversa com meu pai, expus tudo, claro que omitindo umas coisinhas picantes demais. Falei apenas que havia experimentado e que não sabia o que queria, pois, nunca havia transado com uma mulher. Sempre na hora “H” eu desistia, ia embora, fugia. Depois de muito conversarmos achei que estava na hora de experimentar o sexo oposto. Experimentei várias vezes, mas isso não me fez hetero, analogamente chego à conclusão que: heteros não viram gays se forem pra cama com um. Muita gente me critica por essa afirmação, mas pense bem, fiquei casado 10 anos, transei com varias meninas, a minha primeira transa me fez chegar ao orgasmo 7 vezes, algo que nunca consegui repetir com um homem. Qual foi minha conclusão? Posso ser hetero se eu quiser. Doce ilusão essa. O fato foi que sufoquei o gay por toda minha convivência matrimonial. Não traí minha ex-mulher. Eu a amava. No fundo eu sabia que era gay, mas amava minha mulher. Ponto. Pra que me assumir? A pergunta certa seria, Por que? E a resposta é que não tive escolha. Quanto mais sufoquei esse desejo, mais forte ele ficou. Eu não podia nem ver um go-go boy dançando sem ter uma ereção tremenda. Quando me dei conta já era tarde demais. Apaixonei-me por um homem. Mas isso é uma outra história…

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2 Responses to Essa pergunta me persegue: "Como que você foi virar gay?"

  1. JP Recife says:

    Nossa, nem preciso descrever o quao bacana foi esse texto, achei o link do blog em um outro e adorei conhecer, textos fodas, fortes, impressionantes=Dta, apesar de gostar de jiu-jitsu nunca bati em gays, na verdade, sempre tive muitos amigos, mas me sufocava assim como voce, fato é que só tenho 18, mas tive a infeliz ideia de contar a minha mae( seguidora do silas),me apaixonei por um cara, maduro e bem resolvido(sexualmente, pelo menos) e me lasquei, pq entreguei minha liberdade de bandeja a minha mae, que por vida ja tem uma postura dominadora. Ok, nao deveria estar rasgando meu coração aqui, mas curti teu blog, e gostei das informaçoes e da tua coragem em expor essas informaçoes, e dar força a caras como eu, que ainda tem a imagem de "machao" com toda a sociedade, e o mundo caindo dentro de casa, com quem sabe da verdade.

  2. Papai Gay says:

    Parabéns JP Recife… Vou até republicar este post que é bem antigo e quase ninguém lia meu blog… Se seus pais estiverem te sufocando demais, vai à luta, não perde tempo, vai viver esse amor e volta só pra visitá-los… Talvés assim entendam e larguem essa idiotice de ser crente pra lá.

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