Minha entrevista na "Gazeta", tô ficando pop!

 Para ler na “Gazeta”:

http://www2.gazetaonline.com.br/index.php?id=/local/a_gazeta/materia.php&cd_matia=643886

Entrevista – Mau Couti, Fotógrafo e blogueiro

06/06/2010 – 00h00 (Outros – A Gazeta)

por Elaine Vieira
evieira@redegazeta.com.br

“Papai é gay, meu filho”
O fotógrafo Maurício Coutinho, 44 anos, é gay. Depois de anos tentando lutar contra seu desejo, numa época em que era feio e perigoso ser homossexual, ele conseguiu se assumir. A maior preocupação passou a ser como contar para o filho Bryan, então com 8 anos. Sabe o que o menino, hoje com 18 anos e uma tatuagem do nome do pai no braço esquerdo, disse? “Vão te sacanear, papai”. Dito isso, logo depois passou a cobrar: “Você não disse que o namoro era igual, só que entre dois homens? Então manda beijo”, quando o pai desligou o telefonema para o namorado. Para contar sua história e ajudar outros como ele, Mau Couti- como é conhecido profissionalmente – criou o blog Papai Gay, para que crianças e adultos possam encarar o homossexualismo com a mesma naturalidade – e respeito – de Bryan.

Como você se descobriu homossexual?
Desde criança eu sempre soube que era gay, já admirava amigos do meu pai. Eram os homens que despertavam minha sexualidade. Meu pai era militar, mas não era o tipo de pessoa preconceituosa. Mas eu não conseguia me aceitar. Era anos 1980 e não havia ídolos gays. A personagem em voga era a travesti Rogéria, com quem eu não me identificava. Então eu fiquei assim, negando a minha realidade dos 8 aos 14 anos, quando tive minha primeira relação sexual com um homem.

Mas você também teve relacionamentos com mulheres.
Entre os 14 e os 18 anos também tive experiências com mulheres. Eu era considerado um bom partido, então pegava todas as meninas. E pegava homens também, mas com eles era tudo muito escondido, clandestino. Eu achava que com homens era só sexo, que eu nunca ia me apaixonar por nenhum, até porque eu também via aquilo tudo como muito sujo. E sexo é sexo, é bom, principalmente quando se é adolescente, então eu acabava ficando com as mulheres, porque eu também gostava e me apaixonava loucamente por elas. Quando tinha 18 anos, surgiu forte a questão da Aids, a história do Cazuza, e ninguém sabia direito como é que pegava aquilo. Na dúvida, preferi continuar transando com mulheres, porque, além do prazer, parecia mais seguro. E depois, quando decidi contar tudo pro meu pai, ele também acabou me influenciando a tentar com mulheres.

Por que você optou por sufocar sua sexualidade?
Eu gostava de mulheres, mas a atração maior era por homens, sempre foi. Estava muito na dúvida. Sabia que era gay, mas não queria ser. Naquela época ninguém queria ser gay, porque era muito difícil. Além disso teve a influência do meu pai. Foi bom ter contado tudo para ele, parecia que eu tinha me livrado de um câncer, mas, nessa conversa, meu pai, que era muito inteligente, acabou me influenciando, mostrando que já que eu tinha prazer com mulheres deveria continuar com elas. E aí a gente começou a se identificar mais um com o outro e eu me senti mais hetero. Foi então que me apaixonei pela mãe do meu filho, com quem casei aos 20 anos. Ficamos 10 anos juntos e eu sufocando minha homossexualidade. Fomos morar nos Estados Unidos e depois de 7 anos de casamento começamos a nos desentender, como todo casal. Depois de um tempo resolvi que queria viver tudo aquilo que eu tinha vivido com ela, uma relação séria, com um homem.

Foi aí que você começou a se aceitar?
Nos Estados Unidos, desde aquela época, os gays eram muito mais assumidos, tinham muito mais direitos conquistados e isso me ajudou a me aceitar. Quando eu voltei pro Brasil, decidi que a sociedade brasileira machista não ia mais me prender. Me separei, me apaixonei por um menino de 18 anos (eu tinha 30 na época) e assumi para a família toda.

E como foi esse processo até contar para o seu filho?
Foi uma confusão enorme. Minha separação teve briga na Justiça e tudo. Mas depois conseguimos nos entender e passamos a ter uma relação legal para poder criar nosso filho. Juntos, decidimos qual seria a melhor hora para contar para o Bryan. Aconteceu quando ele tinha 8 anos.

Foi mais difícil contar para ele do que para seus pais?
Pelo contrário, foi muito mais fácil. Depois que contei, percebi que nunca deveria ter escondido. A preocupação era se isso poderia influenciar a sexualidade dele, mas eu sabia que um gay já se reconhece assim desde pequeno. Se meu filho fosse gay, ele ia continuar sendo. Se fosse hetero, pelo menos ia se tornar um cara mais aberto, mais liberal, sem preconceitos. E foi isso que aconteceu. Esconder é subestimar a inteligência das crianças, a capacidade delas em entender uma coisa que existe desde sempre. A maldade está muito mais na cabeça dos adultos. Depois que contei, ele fez algumas perguntas sobre como é namoro, o que faz ou não. Eu respondi na medida do possível e em uma semana ela já tinha assimilado tudo.

O que o surpreendeu?
Nosso diálogo foi lindo. Eu perguntei para ele se teria problema se o pai fosse gay, ele disse que não. Então eu confirmei: “Pois é, papai é gay, meu filho”, e a primeira reação dele foi chorar e dizer que as pessoas iam me sacanear. Aí eu expliquei que todo mundo já sabia, menos ele. E ele quis que eu tivesse contado antes.

Você acha que a sua opção se refletiu de alguma forma na adolescência do seu filho, na relação dele com os amigos?

Lógico que as pessoas reagiram. Ele começou contando apenas para os amigos mais íntimos e, sem querer, acabou se tornando um militante no colégio, excluindo amigos que falavam coisas preconceituosas.

E ele participa da sua vida amorosa?
Nos finais de semana em que ele ficava comigo, viajávamos com meu namorado. No começo não tinha beijo, carinho, nada, era como se fosse um amigo. Mas depois que ele ficou sabendo, ele mesmo cobrava. Numa ligação para meu namorado, disse: “pai, você não falou que o namoro era a mesma coisa, só que entre dois homens? Então porque não mandou um beijo antes de desligar?”. Ele me fez ligar de novo, só para mandar beijo, e isso mostra a naturalidade com que encarou as coisas. É uma besteira não mostrar carinho, não beijar na frente de crianças, porque é exatamente isso que um casal hetero faria.

Que tipo de preconceito mais o incomoda?
É não poder andar de mãos dadas na rua. Não poder dar um beijo no meu namorado quando tiver vontade. Só acha que está tudo bem quem se satisfaz com subcidadania. Sou uma pessoa como todas as outras e tenho que ter os mesmos direitos de todo mundo. Por isso a homofobia tem que ser criminalizada. Só assim a sociedade brasileira vai entender que eu tenho o direito de passear de mãos dadas com meu namorado pela rua, sem achar que eu esteja agredindo ninguém. Se as crianças virem, melhor, aí os pais vão poder explicar que é normal e não teremos mais pessoas bitoladas, porque apesar da maior exposição dos gays, ainda tem muita gente por aí que acha que pode espancar uma pessoa só por causa da sua opção sexual.

Vo cê está fazendo sua parte…
Criei o blog para falar sobre o que vivo e ele acabou virando uma ferramenta de utilidade pública, com as pessoas me procurando para tirar dúvidas. Da minha parte, acho que sou o único homem do mundo que quer que o filho seja gay. Queria pelo menos que ele experimentasse, mas ele não quer. Eu transei com um monte de mulher e nem por isso deixei de ser gay. Um hetero pode se permitir experimentar sem deixar de sê-lo também. Até brinco, dizendo que não adiantou nada tocar Cher quando ele era criança, meu filho acabou virando metaleiro!

As bandeiras gays e conquistas no país

Adoção

Em abril deste ano, um casal de homens conseguiu na justiça o direito de ter ambos os nomes constando como pai na certidão de nascimento de sua filha adotiva, que até então era registrada por apenas um deles. Pouco antes, um casal de mulheres também havia conquistado o direito sobre duas crianças já adotadas

Casamento

A união civil homossexual não é garantida pela Constituição, que estabelece, no artigo 226, a “união estável entre homem e mulher como entidade familiar”. Mas é possível registrar, em cartório, uma Escritura Pública Declaratória de Relação de Fato em União Homoafetiva, que resguarda alguns direitos do casal, como inclusão do parceiro como beneficiário no INSS e divisão de bens em caso de separação

Criminalização da homofobia

O Projeto de Lei 122/2006 está em tramitação no Senado. O projeto torna crime a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero – equiparando essa situação à discriminação de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, sexo e gênero, ficando o autor do crime sujeito a pena de até 5 anos, reclusão e multa Também será considerado crime proibir manifestações de afeto entre homossexuais em locais públicos

Plano de Saúde

Este mês, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) passou a obrigar todas as empresas de seguro e planos de saúde a aceitar como dependentes os parceiros do mesmo sexo, da mesma forma que aceitam parceiros de relações heterossexuais em união estável

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
This entry was posted in amor, assumir, filho, filhos, homofobia, virando gay. Bookmark the permalink.

9 Responses to Minha entrevista na "Gazeta", tô ficando pop!

  1. pinguim says:

    Parabéns pela entrevista; está maravilhosa!

  2. Edu says:

    Parabéns pela entrevista; está maravilhosa! [2]Tomara que o Mundo traga cada vez mais pessoas como vc e o Bryan à luz! Pra espantar de vez essas trevas que nos cercam.Beijo!!

  3. Allan says:

    =0 eu fico cada vez mais espantado!meu relacionamento com garotos era a mesma coisa, não me envolvia, era apenas sexo, o que mais me irrita é não poder andar de mãos dadas com meu namorado.Parabéns.

  4. Pablo says:

    Parabéns.Adorei sua posição…OBS: Seu filho é um gatoooo!abraços

  5. Mariana says:

    Como eu gostaria que o meu pai fosse honesto comigo como você! Sempre soube que ele é, mas ele nunca vai assumir nunca.Parabéns pelo Blog!

  6. david era uma vez... says:

    Mau!! impressionate como nossas histórias são semelhantes. Acho talves, por termos idades próximas e filhos com idades proximas! Pra mim tambem foi extremamente mais fácil contar para meus filhos do que para meus pais e irmãos! Eu tive o apoio deles incondicional! Eles tem meu companheiro como um segundo pai, isso é fantástico, eu não impus nada, simplesmente todos conquistaram seus espaços naturalmente na minha vida e na minha casa!Abraços!!!

  7. [Farelos e Sí says:

    ===Cara, as informações são de grande relevância! Nada podemos contra a verdade senão pela verdade. E tem mais: contra o amor não pode haver lei. Nada é mais forte!Mês que vem, ao lado de amigos que são pais [não, não sou pai], abordaremos várias dessas questões num debate aqui no Rio, no sábado, 11/09. Gostei das palavras e da força que encontro na sua verdade!===

  8. Sergio Viula says:

    Parabéns, amigão!Sou gay também, tenho dois filhos adoráveis e nos damos muito bem. Eles sabem que sou gay. A menina, desde os 12 anos, e o menino desde quase os 12 também. Hoje ela tem 18 e ele vai fazer 16. Nosso relacionamento dificilmente poderia ser melhor do que já é!!! Adoro os dois e vice-versa. Meu parceiro se dá super bem com eles e a recíproca é verdadeira. Só os tolos e desesperados homofóbicos para se agarrarem a idéia de que um filho não pode tolerar um pai gay ou um pai tolerar um filho gay. Na verdade, eles é que não toleram a [talvez própria] homossexualidade espelhada no outro, e por isso ficam chocados com vc, comigo e com mais uma penca de pais fantásticos e corajosos que assumem seu desejo e nunca abandonam sua cria!!!!Abraço grande, garoto!Sergio Viula http://www.glsgls.blogspot.com

  9. Bruno Bueno says:

    Cara estou curtindo muito seu blog.Muito bom.Quanto a esta postagem eu mudaria uma coisa,Logo no inicio tem a palavra HOMOSSEXUALISMO, uma palavra antiga quando se referia a homossexualidade como doença, só postei para poder acrescentar.Sucesso para teu blog.Abrçs

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *