O mendigo galanteador.

Estávamos eu e meu namorado, matando o tempo até a chegada do “busão” para o Rio, que saia de Teresópolis, quando fomos abordados por uma figuraça. Um coroa, lá pelos seus 50 e poucos anos, ou menos, mas castigado da vida ao ponto de não se ter muito bem idéia de sua idade. Eram 2 horas da manhã, um frio de rachar os ossos, a rodoviária deserta, e lá estávamos, nós 3, quando, lançada ao vento, veio a frase que derreteu qualquer discernimento orelha a baixo.

– Vocês estão solteiros aí?- disse a figura de olhos claros cansados, bigode ralo e curto, uma mistura de roceiro e mendigo com meias e chinelões, daqueles de jogador de futebol.

Não lembro ao certo a nossa resposta, mas sei que ele emendou um monte de palavras na qual dizia ser o primeiro que iria trazer a parada gay a Teresópolis e que nós precisávamos ir e, por fim,  estendeu a mão para um aperto cordial. Pronto. Contato. O que eu faço? Pensei. Se aperto a mão ele não vai mais embora, fora a quantidade de micróbios que aquele aperto poderia me passar. Puta merda! Apertei. Daí pra frente, relaxei. Não ia mais me livrar dele tão fácil como imaginei, então dei corda pra se enforcar. Estava muito tarde, havíamos perdido o último ônibus de volta ao Rio que saía ao horário ridículo das 22 horas (que coisa mais provinciana mesmo). Aquele estranho se apresentando, tornava a noite mais louca, enriquecendo-a com o acaso de encontros imprevisíveis vindos de pólos tão opostos quanto os nossos. Ele continua:

– Vocês vão fazer o que? – Visivelmente bêbado e, de certa forma, arrumado, ao ponto de ficarmos na dúvida se era um mendigo ou apenas um roceiro que bebeu um pouco demais. Depois de algumas trocas de conversas inexpressivas e alguns pensamentos que não me recordo, ele manda a pérola:

-Tá frio mesmo, vocês não querem um cobertor de orelhas?- O mendigo, então, esboça um sorrizinho sem vergonha.

Não me contive e explodi num riso genuino e afiado, ao ponto dele dar adeus e se retirar por livre e espontânea pressão. Ficamos, eu e meu namorado, rindo por muito tempo, até sermos interrompidos por um berro ao longe repleto de palavras.

– Sou passivo.

-E ativo.

-Sou versááááááááátil!!!

Pronto. Se já estávamos rindo, ai sim nos debulhamos de tanto rir, até esquecermos o frio cortante de uma noite de 8 graus, ao relento numa rodoviária do interior, tendo que esperar por mais de 2 horas o próximo ônibus.

O mais louco disso tudo é que enquanto ele estava dando em cima da gente, o tempo voou, e depois que se foi, fez falta. Pensei que poderia ter sido mais simpático com ele, bateu remorso. Uma parte de mim se sentiu mal por ter um lar, 2 gatos e um cobertor quentinho em casa. O que será que o espera? Será que tem alguém? Será que ele era realmente o bisneto do ex-prefeito da cidade, como havia nos dito? E como será que chegou a esse ponto? Reflito, agora, ao escrever isso, o quão frágil é o nosso “status-quo”. “One day you´re in and the next you´re out” (project runway gente!) . Espero, do fundo do coração, que ele nunca passe frio ou fome, pois a primeira coisa que fizemos quando chegamos em casa foi tomar um bom banho quentinho e deitar na nossa cama hiper/mega/blaster confortável. Queria ter sonhado com um mundo melhor, mas estávamos tão cansados que só lembro do despertador no dia seguindo berrando para eu ir trabalhar.

E o mendigo da cantada que não tem preço? Ficará na memória, ou quem sabe aparecerá na próxima parada gay de Teresópolis e eu terei a chance de apertar sua mão de novo, mas dessa vez com orgulho e alegria.

 Umas piadinhas de roceiro para ilustrar:

MINEIRIM COMPRANDO PASSAGEM

O mineirin vai a uma estação ferroviária para comprar um bilhete..
– Quero uma passage para o Esbui – solicita ao atendente.
– Não entendi; o senhor pode repetir?
– Quero uma passage para o Esbui!
– Sinto muito, senhor, não temos passagem para o Esbui.
Aborrecido, o caipira se afasta do guichê, se aproxima do amigo que o estava aguardando e lamenta:
– Olha, Esbui, o homem falou que prá ocê não tem passagem não!

NUDEZ MINEIRA

Dois cumpadre de Uberaba tavam bem sossegadim fumando seus respectivo cigarrim de paia e proseano.
Conversa vai, conversa vem, eis que a certa altura um deles pergunta pro outro:
– Cumpadre, u quê quiocê acha desse negóço de nudez?
No que o outro respondeu:
– Acho bão, sô!
O outro ficou assim, pensativo, meditativo…e perguntou de novo:
– Ocê acha bão purcaus diquê, cumpadre?
E o outro:
– Uai! É mió nudês do que nunósso, né mesmo?

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11 Responses to O mendigo galanteador.

  1. FOXX says:

    taí um tipo q nunca me cantou…qr dizer…ah, já aconteceu sim!hauhauahauhauamas ele tb me pediu dinheiro e era só ativo…

  2. Leandro says:

    Cobertor de ovelha 0_0 esta foi boa. Eu nunca fui cantado por mendigo ainda bem porque caso acontecer a minha auto-estima vai parar de baixo do pé. Soa preconceito mais é o que sinto hoje. Eu acho que este mendigo foi "elegante" porque ele usou as palvras tentou uma "conquista" verbal e não foi como estes canatrões que si quer diz nada e leve a mão ao genital e cutuca o mesmo com aquele olhar "suck my d***, bitch!". Eu detesto estes tipos.

  3. Jean Borges says:

    Caraca…tinha que ser Uberaba???rsrrsrsrsrsrsAqui o trêm é bão sô!!!Não é assim não uai!!!kkkkkkkkkkkkkkkk

  4. Fred Lima says:

    Adoreeeeiii o papai gay, conheci o blog pela omega hitz, da qual sou colunista de moda no vibehouse. Acompanhe meu blog de moda também: menswearnow.blogspot.comTambém quero ser um ótimo papai gay… heheheAbraço

  5. Papai Urso do Interi says:

    Tadinho… Incrível pensar em como deve ser difícil para um gay envelhecer e ver-se limitado e por vezes, solitário. É asina da qual não escaparei. Eu entendo quem usa a bebida como muleta. O mundo tá tão individualista que só mesmo de porre a gente consegue não enlouquecer de vez!

  6. Guy Franco says:

    O nome dele é Gerson, tá sempre por ali, vive bêbado. Que eu saiba, ele é só passivo. Família não aceita. Vive com uma senhora.

  7. Sibill says:

    Coisas que somente acontecem em rodoviárias e sempre em momentos inexplicáveis.

  8. João says:

    olá!conheci seu blog semestre passado fazendo uma pesquisa pra faculdade no google sobre pena de morte pra gays em uganda. acabei, claro, não encontrando muita informação técnica sobre o assunto no seu post, mas tive a chance de conhecer seu blog. e tenho acompanhado algumas vezes desde então. aí mês passado abri meu blog sobre relações internacionais e tudo o mais.hoje postei meu trabalho final sobre a análise de caso em uganda. maisumv.wordpress.comdá uma conferida lá.bjos pra família!joão

  9. Muito Franca says:

    Bem, ficou preocupado por que tem uma casa, dois gatos, cama super, hiper, mega, blaster confortável, mas esqueceu que ele não estava sentindo falta disso… Tudo o que ele queria éra um cobertor de orelhas, e vocês com quatro o negaram isso… Criaturas sem Deus no coração!!!!!Muito franca!

  10. Lilah says:

    Vim ler vc como sempre e aproveitar para fazer um convite. Coluna Mãe, sou gay lá no meu blog. Uma visão das relações entre pais e seus filhos gays, pelos olhos de uma mãe.Ía adorar ouvir sua opinião.Bjs

  11. Papai Gay says:

    QUerida Lilah, não achei teu blog "Coluna Mãe". bjos

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