Pai ateu, filho religioso. Como conciliar isso?

Outro dia estava eu, meu filho e namorido vendo TV. Aparece uma mulher, sobrevivente de alguma tragédia, e diz:

-Eu acho que foi Deus que me salvou, acho não, tenho CERTEZA!

Eu, como bom ateu que sou, tive que resmungar:

– A mesma mão que salvou ela matou todos os outros então.

Sim, porque do mesmo jeito que a mão de Deus fez com que ela se atrasasse, ou seja lá o que for, fez com que os mortos NÃO se atrasassem e fossem de encontro à morte.

Meu filho indignado falou:

– Mas era a hora deles.

Fica difícil argumentar com essas certezas que eu não compartilho. O problema essencial é que eu ACREDITO no acaso. E quem acredita que as coisas não precisam ter um sentido maior do que elas têm, fica sem ter o quê argumentar nessas horas. Eu me calo, desisto, já cansei de discutir a fé alheia. Aliás, não me importaria a mínima para religião alguma, se esta não me afetasse diretamente por ser gay.

A dificuldade de lidar com isso surge, justamente, quando se tem opiniões tão opostas dentro da sua própria casa. Estou meio perdido. Tento acreditar que a fé em si não é algo ruim. E realmente não acho que seja, acho que faz bem pensar que existe algo a mais após a morte, algo confortante, algo perfeito e completo que nos protegerá quando morrermos. O problema surge quando a intervenção humana, em nome de Deus, resolve decretar quem se salvará e quem queimará no mármore do inferno.

Enquanto meu filho acreditar num poder supremo, em um Deus, tudo bem. Respeito. Mas, se um dia ele aparecer com uma bíblia na mão e recitando Leviticus, vou internar. É brincadeira, claro, ele jamais fará isso. A crença dele é aquela que merece todo meu respeito. É a crença em algo Divino, maior, justo e confortante. Toda a palhaçada de julgar os outros, graças à “Deus”, não o contaminou. Enfim, é difícil lidar com qualquer divergência de opinião, mais ainda quando se trata da nossa cria. Do mesmo jeito que, provavelmente para os meus pais, o ideal não era eu ser gay, o meu ideal para ele era que fosse ateu, mas de forma alguma isso diminui meu amor por ele. Uma coisa eu botei na cabeça, papo de religião em casa está abolido!

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9 Responses to Pai ateu, filho religioso. Como conciliar isso?

  1. Papai Urso do Interi says:

    O que p/ muitos é contradição cabeludíssima, p/ mim é algo lindo, sou católico gosto de ir a missas, gosto do ritual católico, de tirar terços em intenção a causas diversas, de recomendar meus filhos ao santinho do dia e essas coisas que viraram sinônimo de ser demodè… Minha experiência com a Bíblia ñ foi mediada por padre ou (argh, cusparada de nojo!) pastor, mas por momentos que me levaram a ler e reler aquele livro em busca de minhas próprias interpretações… E ñ é que consegui traçar uma linha de raciocínio sem virar fanático?! Descobri que LEVÍTICUS e o ñ menos obsoleto DEUTERONÔMIO são, na verdade, retratos de uma época e de um povo ñ necessariamente podendo ser atribuídos ao querer de Deus, afinal qualquer louco de hospício pode dizer-se inspirado pelo Altíssimo e em nome d'Ele proferir e fazer asneiras… Quer exemplo maior que a crentarada do mal que tomou conta de Brasília e de emissoras de TV? Seu filho tem o que tenho: fé – palavra curta mas extensa em significados, repense, repense… Acho luxo isso de gays católicos ñ abandonarem sua fé, eu primeiro da fila!!!

  2. Papai Gay says:

    Papai Urso, você sempre me dando uma opinião pertinente… Vou pensar se repenso, repenso e repenso… rs

  3. wal says:

    o respeito dentro da família é maravilhoso, em minha família cada um tem sua crença religiosa, algumas eu diria controversia a outras mas todos se respeitam.papai é católico, mamãe é evangélica e eu tenho um pé na umbanda e em casa nunca se fala em religião. ACEITAR é opicional mas RESPEITAR é obrigatório.adorei o blog.

  4. Leonardo del Rey says:

    penso q isso nao quer dizer q seu filho eh religioso… ele so acredita em um ser superior. e pronto

  5. Logo Alí says:

    Ei, Albert Einstein dizia: "A ciência sem a religião é coxa, a religião sem a ciência é cega". O importante, eu acho, é não se perder em dogmas religiosos, promessa de vida eterna e pensar que Deus privilegia uns e detrimento de outros. Acho que a religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia. É importante, antes de abolir o tema, quem sabe, chegar num consenso. Não precisa haver divergência sempre, quando se fala em religião. Abraços

  6. Cara Comum says:

    Hummm… Complicado conviver com as diferenças, né? Mas há que haver respeito de todas as partes e já é meio caminho andado… Abração!

  7. Mila says:

    Bom, entendo a dificuldade. Eu sou Kardecista e estudo um pouco sobre o budismo e a esposa é ateia (se é que se tem feminino e masculino da palavra ateu, rs). Até aih tudo bem, ela me respeita e até é simpática ao budismo, mas agora estamos encomendando nosso filhote mês que vem e aih? Como será daqui pra frente?Pois é, já ficamos decididas a deixar ele bem livre e vamos tentar mostrar um pouco sobre tudo e deixar que o coração e a cabecinha dele aos poucos decida que caminho percorrer. Ok na teoria perfeito, mas será que na prática vai funcionar? Será que vamos conseguir?Bjus (mesmo sem escrever adoro ler seu blog)Cah e Vih

  8. Gabi says:

    Olá Papai,

    Estou lendo seu blog pela primeira vez e estou adorando! Parabéns!
    Fiquei tentada a comentar este post pois passei por situação muito similar em relação à religião. Sou Lésbica, casada, eu e minha esposa tivemos nossa fase de ódio e nojo por tudo que era religioso, porque sabíamos que nos condenava. Argumentávamos com todos ao nosso redor, os hipócritas, moralistas, religiosos (principalmente os evangélicos, que tem a mania de querer te converter, etc). Por acaso descobrimos o Espiristismo, foi algo muito bom que veio no momento certo para nós. Tirou todas nossas dúvidas em relação a vida, a morte, ao amor em todas as suas formas, e etc. Recomendo que leia o Livro dos Espíritos, de Alan Kardec. Se tiver a oportunidade, faça-o…mas faça-o despido de preconceitos. O Espiritismo Kardecista é fascinante, principalmente para aqueles que crêem não apenas no amor (como todos nós LGBT), mas também na moral, na ética, na justiça, no “ser uma boa pessoa” em todas as extensões da palavra. E o legal é: ninguém vira espírita por conversão. Ninguém te converte, te obriga. Você tem que ver por si só. Fica a dica de leitura!

  9. LIBERDADE says:

    Eu era cristão, mas eu não precisava ser manipulado pelos homens de quatro paredes.
    Não vejo significado de estar sentado ali dentro daquele lugar gritando para DEUS me ouvir, enquanto eles mesmos indagam que ele está em qualquer lugar.

    Vou queimar para sempre? Alguém ai conhece algum material que é capaz de queimar infinitamente? Acho que nada queima para sempre, nem Hitler terá essa pena.

    Era isto, por ser bisexual fui condenado ao inferno, imagine sendo pedófilo então!

    Mas…

    Mesmo cheirando a merda, o mundo é muito perfeito para ser só o resultado de uma explosão galáctica.

    Acredito que há algo maior, é por isto que respiro, por isto que vivo, por isto que amo…

    …por isto que vou morrer.

    Esta é minha opinião, antes de posta-la aqui eu me coloquei em seu lugar afim de não causar constrangimento, não quero ofender a ninguém e nem tanto ser ofendido.
    Acho que todo mundo aqui é adulto com mente aberta, porque se não for nem me visite.

    Quem sou eu? http://icanttolie.blogspot.com/

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