Quando o preconceito vem de casa.

Devagarzinho, como quem é ardiloso, como quem é de escorpião, como quem é sonso mesmo, fui arrancando uma confissão pra lá de dolorosa de se ouvir. Um retrato típico do preconceito inserido nesse Brasil da classe proletária. Mais especificamente de Realengo, um subúrbio aqui do Rio, onde ocorreu aquela tragédia na escola primária que matou nossas crianças em tão tenra idade. Foi de lá que surgiu uma negra, daquelas que não se “fabricam” mais, uma máquina de trabalho, uma pessoa de mãos calejadas de tanto trabalho braçal. Foi de lá que meu mundo se chocou com o dela.

A conheço há mais de 20 anos, era empregada da minha mãe na minha adolescência, mais como diarista até, mas que acompanhei de perto sua vida e ela a minha. Soube hoje que ela não me leu muito bem, pois na época jurava que eu não era gay, embora o motorista da família já houvese a alertado várias vezes. Como vim a descobrir hoje. Foram anos de mentiras que enganavam alguns mas nem todos. Pelo visto o motorista não se enganava tão facilmente.

Mas essa negra, do tipo que senhores de engenho pagariam fortunas na época da escravidão, de olhos verdes, cabelos bem curtos e um ar de dona da sua vida, era muito forte, mas não estava preparada para ter uma filha gay. Segundo ela, depois de algumas horas de questionamentos, descobri que sua filha foi expulsa de casa à base de xingamentos e muita incompreensão. Foi um esforço muito grande da minha parte em ouvir esse testemunho e não expulsarda minha casa, mas ela estava visivelmente confusa e sendo muito, mas muito mesmo, sincera. Ela me disse com todas as letras, que estava ainda tentando aceitar, mas que não conseguia. Que a filha ainda tinha a possibilidade de ter se tornado gay por ter sido estuprada e concluiu que não conseguia aceitar essa opção dela. Foi aí que eu tive que interferir. Expliquei que não era uma opção e que ela havia nascido assim. Do mesmo jeito que sua mãe havia nascido negra. Infelizmente, toda vez que eu pegava mais pesado, o olhar da negra se perdia em pensamentos que eu sei bem quais eram: do tipo que nega a realidade, que não quer enxergar e por aí vai. Falei horrores, disse que a filha já sofria pra cacete, como todos nós, na rua e que tudo que ela não precisava era da reprovação de sua mãe. Falei tanto, que para reescrever aqui levaria horas. Não sei se alguma coisa entrou na cabeçola da minha querida negra, espero que sim, pois se não tiver entrado eu fatalmente me afastarei dela. Me afasto de qualquer tipo de pessoa preconceituosa, não adianta, isso é uma falha de caráter que não consigo perdoar e muito menos relevar.

Espero do fundo do meu coração que essa relação mãe e filha, tão típica da nossa sociedade, melhore e que, com o tempo, venha a aceitação plena sem julgamentos ou cobranças. A minha negra querida até foi, outro dia, almoçar na casa da filha. Dei a dica para que ela começasse a chamar a parceira da filha, que já estão há mais de 5 anos juntas, de “a namorada” e que encontre brechas em conversas para dizer o quanto ama a filha. Tentei empurrar um pedido de desculpas no meio, mas isso, essa negra forte, guerreira e um tanto limitada, disse que não fará nunca, uma pena. Mas, é bem o retrato dessa sociedade preconceituosa que nos usa, nos rejeita e nos humilha  e que também não pedirá perdão. Assim como jamais pedimos aos negros escravizados, os gays também não verão essa confissão de culpa jamais. Me lamentar? Nunca. Pedir justiça? Sempre.

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20 Responses to Quando o preconceito vem de casa.

  1. Thiago says:

    "Mas, é bem o retrato dessa sociedade preconceituosa que nos usa, nos rejeita e nos humilha e que também não pedirá perdão."

    E essa é a verdade. A bela e terrível verdade…

    Eu entendo que para uma pessoa limitada, que não está acostumada com "isso", pode ser sim muito difícil saber lidar de cara. Torço pela mãe e pela filha, torço pelo amor.

  2. Foxx says:

    que triste, mas eu faço uma pergunta a seu titulo: todo preconceito não vem de casa?

    • Papai Gay says:

      Foxx, não sei se todos… Mas uma parcela forte acho que com certeza sim. O resto fica mesmo por conta da sociedade e, acredito eu, à ruindade intrínsica a todo ser humano, só que uns fazem questão de externá-la

  3. Paulo says:

    é muito terrivel mesmo uma dor que sinceramente nao fere o coração mais a alma, ja sente isso na pele, quando criança estava na sala com minha mae e minhas duas irmãs e meu pai na sala nao sei porque minha irmã que é gemea comigo soltou o marquinhos estava brincando de boneca hoje isso eu tinhas um 8 ou 9 anos[Bom gente me chamo marcos paulo prazer rsrs] e essa frase ecoa na minha mente até hoje "se você voltara brincar de boneca de novo e eu ficar sabendo te jogo na rua pra voce nunca mais voltar" lembro perfeita mente e ele nem se mexeu da cadeira e nem se levantou continuo la bem frio pude perceber porque depois do que ele tinha me falado minha atenção só estava nele e bom ele ja nao falava muito comigo ai é que parou de falar mesmo hoje em dia ele ja falava mais porque ele e minha mão ja estao separados bom ainda é dificil para mim chama lo de pai na presença dele mais eu tento rsrsrs mais que é uma dor e situação terrivel é.

  4. Paulo says:

    bom nao é para aceitar esse coment

    papai gay tem uma projeto #EuSouGay achei bem bacana se poder pesguisar e falar algo aqui em seu blog seria bem bacana eu procurei aqui e nem encontrei algo nao sei se você esta sabendo mais se poder repassar tambem seria bacana é um projeto bem legal

  5. Caio says:

    Talvez por excesso de complacência, costumo considerar que pessoas mais humildes, como a diarista que vc mencionou, não são intrinsecamente ruins ao rejeitar um (a) filho(a) gay, mas, apenas, repetem o preconceito que lhes foi inculcado. É um preconceito ignorante, inconsciente, do qual a própria pessoa preconceituosa também parece ser vítima. Isso é diferente daquele preconceito da classe média, supostamente esclarecida, que sabe que a conduta do preconceito é puramente errada, degradante e, ainda assim, mantém-se nela e a reforça. O pai ou a mãe burgueses, que tiveram chance de se educar e aprender conceitos mais abrangentes e corretos mas, ainda assim, passam ao largo das informações que prestam e optam por se manterem preconceituosos, estes sim são muito mais condenáveis do que essa gente pobre e sofrida, que nem teve a chance de conhecer idéias diferentes.

    Vc vai ver, em breve essa negra vai ter compreendido a filha e vai aceitá-la de uma forma que muita madame jamais conseguirá fazer por seu filho.

    Um abraço,

    Caio.

    • Papai Gay says:

      Concordo Caio, eu perguntei pra ela, tirando o fato da filha ser caçoada na rua, qual a outra coisa que a faz ser tão contra a filha ser gay, e ela não teve resposta. Acrescentei dizendo que por ela ser mulher e negra devia ter sofrido muito preconceito, o que ela confirmou, e conclui que por isso mesmo ela não poderia perpetuar esse preconceito contra os gays. Entrou na cabeça? O tempo dirá…

  6. Cara Comum says:

    Pois eu sei o que é ser expulso de casa, o que é conviver com o prconceito dos próprios pais… E eles também nunca me pediram perdão. Apenas propuseram "passar uma borracha em tudo que aconteceu"…

    Eu tb evito o covívio com pessoas preconceituosas. Mas acho bonito mães como essa negra que vc descreveu tentarem entender melhor o que está acontecendo, tentarem se aproximar dos filhos…

    Não que ela está certa, mas ela tenta caminhar na direção de um progresso. Já é um avanço quando se considera que muitos pais nunca farão isso. Tem gente que tem tanto preconceito arraigado e que este está consolidado com tamanha força que é muito provável que morrerão preconceituosos, duros consigo mesmo e com os outros, megando que o amor pelos próprios filhos possa falar mais alto que o preconceito…

    Mas, como vc disse, a gente segue na luta por justiça…

    Abraços!

  7. Papai Urso do Interi says:

    Lá em casa d uma prole de três filhos homens, dois são gays: eu (o mais velho) e meu irmão do meio. Ele assumiu-se aos 17 e hj aos 33 é alcoólatra pq nunca saiu da rédea de mamãe (que acredita que homossexualidade é 'uma safadeza que todo homem faz mas que não devia revelar nunca' – palavras dela)! Quando percebi que ela era assim dei no pé, ganhei o mundo fui estudar fora, só anos depois voltei, casei c/ mulher, tive filhos e vivi um tempo de ilusão bissexual. Minha mãe, como bem disse o Caio acima, é esclarecida, estudou, mas não consegue disfarçar seu preconceito, pq ela é do pior tipo: a que não quer parecer preconceituosa, mas é de forma ferrenha. Ela tem predileção/adoração pelo caçula (o único hetero) e nem mais esconde isso, o que gera um clima horrível. A gente demora pra entender que pessoas assim possam mudar… Eu definitivamente não acredito que alguém que tem preconceito internalizado mude, ele já é parte do DNA da pessoa, tá arraigado até a raiz do cabelo, tudo que diz a psicologia, os sexólogos e seus livros… de nada adianta, quem se desgasta, sofre e se pergunta 'por que?' é a gente, eles nem tchum… Por isso que desde os 30 decidi que do meu pau e da minha bunda cuido eu!

  8. Jussara says:

    Papai,

    algumas pessoas ainda têm salvação. Tenho uma amiga que a pouco mais de um ano descobriu que a filha é gay, a menina (18anos) contou a ela. Ela não rejeitou ou expulsou, mas entrou em uma profunda depressão. O pior não contou a ninguém, nem aos outros filhos e marido! Resumidamente a garota não aguentou, pois certamente esperava apoio da mãe e se mandou prá Austrália. Voltou em fevereiro, a mãe finalmente se abriu com algumas pessoas, foi fazer terapia e começou um processo de aceitação, a duas semanas reuniu os outros filhos (3 rapazes) e o marido e apoiou a filha quando ela contou. O melhor, ela está tão feliz por, segundo ela, ter sua filha de volta!

    Acho que o sofrimento deva ser de ambas as partes e acredito que sua diarista, mais cedo ou mais tarde, vai aceitar.

    Eu andei indicando a ela alguns blogs que tratam do assunto de maneira séria e o seu é um deles.

    bjs

    Jussara

  9. Lobinho says:

    História triste!É o tal do preconceito enraizado.

    Tb tive que sair da barra da saia de minha mae para poder viver.Sei (e ela mesmo me disse) que jamais me deixaria em paz,enquanto fosse gay.Sentei,expliquei trilhoes de vezes e nada dela querer entender.Nao trago mágoas,mas tb fico distante,pq sei q perto ela me infernizará muito.

    Pelo seu post,percebi que vc gosta muito dessa mulher.

    Beijos.

    • Papai Gay says:

      Mandou muito bem! Sei que deve ser difícil desistir de uma mãe, especialmente quando chegam as datas festivas como a de domingo agora. Enfim, acho que fez a coisa certa. Ela deve precisar de um tempo, e sendo duro com ela, talvez ela vote atrás e reveja seus conseitos. Boa sorte, mas não espere nada, siga sua vida de cabeça erguida. bjos

  10. por eu tenho o Namorado mais novo do que eu , a familha n aceita ele e discrimina ele o que eu faço??

    • admin says:

      Putz, muito pouca informação para opinar. O quanto mais novo é ele? A familia discrimina como? Você é independente? Os 2 são maiores? Enfim… Conte mais.

  11. clecio says:

    Existem muitos preconceitos e cada um deles,revela nua e crua a negatividade de uma raça problematica/,preconceituoso é a mesma coisa que criminoso,homens,mulheres e até crianças preconceituosas que são frutos de um desamor social.Orientaçoes de pais selvagens que julgam a favor de si propio.Passamos panos quentes,finjimos que não vemos.moro em uma casa compartilhada e não tenho coragem de trazer uma paquera,tenho medo e vergonha.Guando éra bem criança ,eu vi meu conhado,casado com minha erma,que aliaz ja sonhei matando éla/Eu vi ele discriminando uma criança que faz parte da familia dizendo,”parece uma menina”e certa vez me chamou de fruta,Mas em um momento em que ninguém estava por perto ele enfiou o dedo no meu anos,eu gostei mas será que eu sou doente ou ele?chorei muito guando éla casou.Os filhos o idolatram…como ele é o provedor…ele se sente onipotente.Torço para que as mulheres sejam independentes e não fiquem a merce de um frio e inteligente manipulador.Sinceramente não conheço nenhum exemplo de homem,a não ser o papay gay que está marcando seu legado para uma geração de cuca legal

    • admin says:

      Nossa Clecio, imagina, eu marcando legado… Enfim… Esse seu cunhado me parece um inrustido. Não liga pro que ele fala. E vc gostar da dedada é normal, somos tão privado de prazeres que eles se manifestam das maneiras mais exdrúxulas do mundo. ABço

  12. Flávio says:

    Tá explicado!

    Ela foi estuprada, por isso que se tornou lésbica.

    Ela deveria fazer um tratamento para tentar se curar.

    Mas, a saúde no Brasil é lamentável!

    Esses governos cheios de corrupção não conseguem garantir o básico para as pessoas.

    Precisamos lutar para que o SUS possa oferecer um tratamento digno para tentar recuperar essas pobres pessoas.

    • admin says:

      Oi, que absurdo isso que você falou! A pessoa só é lésbica se for estuprada? Você vive em que mundo? Nem vou comentar isso.

  13. Caynã says:

    Parabéns pelo texto. Concordo com tudo que foi dito.
    Minha história de vida parece com essa. Hoje tenho 21 anos e sei muito bem o que passei até chegar no momento de aceitação e compreemsão que vivo. Eu não fui criado como gay. Minha mãe me disse que nunca percebeu nada!! Como assim? 365 dias por ano juntos e nunca percebeu nada?
    Devido ao preconceito do mundo procurei ter uma vida “normal”. Namorei por anos com meninas e só “resolvi” minha vida há dois anos e contei tudo à minha mãe e meus irmãos. De lá pra cá tudo virou de ponta cabeça. A liberdade que tinha foi suprimida. Carro, dinheiro… TUDO MUDOU!!
    Mas hoje tenho a certeza que fiz o correto. Busquei e hj tenho consegui ser independente e mesmo com essa reviravolta que minha vida deu não me arrependo de nada.
    Sofro sim diariamente com a incompreensão de uma família que imaginei que iria encarar com mais benevolência, mas pude fazer amigos iguais a mim e ver que com eles sou muito feliz.
    Sofrer preconceito por parte da sociedade já é difícil e dentro de casa nem se fala. Se essas famílias bem soubessem criariam seus filhos homessuxais sem fazer com que eles se sentissem sujos ou menos que os outros. Tenho certeza que assim seriam todos mais felizes.

    • admin says:

      Parabéns mesmo, mas quer um conselho? Saia de casa o mais rápido possível, não deixe que a homofobia da sua família acabe com a sua alegria de viver.

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