Olhando para trás.

Existem momentos na vida em que temos a obrigação de parar, reavaliar tudo e concluir se valeu a pena. O que valeu? Tudo! Se tudo que fizemos valeu… Sim, a vida toda. Até agora, claro. Esses momentos são ativados quando entramos em contato com algo, que geralmente é artístico, e algo muito mais forte nos empurra em direção a tal questionamento. Valeu? Está valendo? Vale ainda?

No meu caso foi o filme que venceu no juri popular de Cannes como o melhor filme e que talvez concorra a melhor filme estrangeiro no Oscar. “Contracorrente” conta a história de amor de um pescador e um pintor, ambos ambientados em uma cidade pequena e pesqueira. IMPERDÍVEL! Não vou entrar no mérito do filme, nem tampouco quero criticá-lo. O que me interessa é que me fez pensar, refletir sobre a minha homossexualidade e sua aceitação, tanto por mim quanto pelos outros. De certa forma o filme te leva ao amor impossível que não ousa desafiar a sociedade vigente. Um amor sofrido, como na maioria das vezes o é. Principalmente o gay. Mas precisa ser? Eu preciso sofrer para amar outro homem? A resposta, infelizmente, é sim. Por mais que eu me aceite, que meus amigos também e que a minha família idem, no atual período social, encontraremos, certamente, a oposição ferrenha da maior parte dos grupos sociais. Será também que essa felicidade é possível entre casais heteros? Até acho que não, mas por milhões de outros motivos. Nunca por ser um amor. Nosso amor é rebaixado, humilhado e discrimidado por si só. Basta ser amor que já sofremos. Não tem muita escapatória, né? É aí que entra o meu questionamento. O que estou fazendo para mudar essa realidade? O que vou fazer? O que eu preciso para ser mais feliz no meu relacionamento? A merda é que, o que eu preciso, não depende tanto de mim e sim dos outros. É a não aceitação que precisa mudar. Mas o que eu posso fazer sobre isso? Reticências.

Existe uma terrível sensação de impotência que não me larga. Por mais que eu reclame, xingue, faça e aconteça, nunca é o bastante para ecoar em mudanças perceptíveis. Tudo parece tão estagnado, tão lento, tão impossível. Ao meu redor, todos continuam falando mal de nós, tanto escondido quanto em nossas “fuças”. O amor e a violência não param de se chocar em todas as esquinas da vida. O machão continua xingando todos de viadinhos, as recalcadas continuam nos culpando por seus casamentos desfeitos, os inrustidos ainda distribuindo palavras maldosas a quem quiser ouvir e tiver fé, e nós, continuamos acoados em nossa blindagem egocêntrica para não pirarmos de vez. E assim a vida continua, e nós nos perguntamos, será que tá valendo?

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9 Responses to Olhando para trás.

  1. Foxx says:

    sério que contracorrente causou isso em vc?
    eu achei um dos piores filmes q já vi na vida…
    q coisa!

  2. LuizFactor says:

    Se vale a pena!? SEMPRE VALE A PENA LUTAR PELA VIDA.
    Não te reconheci neste post. Muitas crianças lêem o seu blog, e tudo o que elas não precisam é de mais dúvidas.
    A batalha contra a tal violência só vai acabar quando nós tivermos vencido. O que podemos fazer é acelerar o processo, diminuir o sofrimento. Para isso devemos todos reagir, de toda forma possível, esse é o caminho. E devemos passar isso para as novas gerações, que eles podem reagir.
    As vezes deve lhe dar a impressão de estar remando sozinho contra a maré. Mas saiba cara, você está no caminho certo!

    • Papai Gay says:

      Calma querido, eu só gosto de questionar as coisas… Não dou minha resposta, mas acho que ela é óbvia! Dia 18 vou no Palácio de Laranjeiras ver as diretrizes da coordenadoria dos direitos gays do municipio… Faço por onde, não se preocupe.

  3. Marclei says:

    entendo perfeitamente o que vc disse !
    também acontece comigo , é estranho quando passamos na rua e percebemos que muito poco mudou, de início me questionei sobre o culpado depois percebi que não existe culpado , são anos de preconceito a sociedade vai mudar porém muito devagar ,o bom é que hoje podemos falar em direitos coisa que não existia não se falava a 10 anos atrás . valeu a pena tudo o que foi feito até hoje , valeu apena !
    continue a se questionar , só assim encontramos respostas , para o que somos e principalmente para o que queremos ser .
    um abraço .
    Marclei figueiredo .

  4. Está valendo sim…pois estamos buscando nossa felicidade.
    Gostei da observação que fez sobre o filme…um bom filme que também gostei.
    abraços

  5. Cara Comum says:

    Muito me estranharia se séculos de preconceito se desfizessem com algumas atitudes partindo apenas do lado interessado… a lógica é: o saldo do preconceito é MUITO maior do que o que estamos fazendo… Mas isso é motivo pra desanimar?? NÃO!!! Pq se agente parar de fazer alguma coisa, o saldo do preconceito só aumentará!!! Por isso devemos sim lutar e muito a cada dia pela nossa dignidade!!! Para que, amanhã ou depois, a gente possa fruir do nosso esforço…

    Tá valendo?? Claro que está!!
    Pelo menos pra mim esse blog valeu e muito!!!

    Abração!!!

  6. Papai Urso do Interior says:

    O problema é que tudo aqui é devagar demais… Negros passaram 100 anos até ganhar Lei Afonso Arinos que criminalizava racismo, mulheres apanharam e foram propriedade de maridos truculentos por mais de 500 anos até vir recentemente Lei Maria da Penha, e nós, quantos de nós ainda vão morrer até que se criminalize a homofobia como já aconteceu em quase todos os países democráticos? Vai levar o que 100… 200 anos?

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