Lembrando de Viver

Nossa. Até respirei mais fundo agora. O som das mini-caixas no meu note ecoam algo de Ammy, e a temperatura do quarto, ideal, com meu ar condicionado à todo vapor, me faz refletir e escrever aqui, para ser compartilhado, o quanto precisamos parar, e simplesmente sentir a vida. É tanta obrigação hoje em dia, que um momento desses deve ser supervalorizado ao extremo. Tenho, ultimamente, que pensar em todas as mortes por homofobia, me proteger de todos os Bolsonaros da net, que atualmente se sentem à vontade demais para “expressar” suas teroias preconceituosas e assassinas, ser pai de um adolescente às voltas com suas próprias descobertas, administrar namoro, casa, trabalho, e tudo exemplarmente, tentando o tempo todo provar ao mundo que ser, e viver, um “lifestyle” gay é exatamente igual a qualquer outro. Cansa viu.

Que tal tentar adotar como meta do próximo ano ser mais “light”? Nossa, será que me deixarão? Quantas vezes estou apenas me distraindo na net e vem alguém e me passa uma notícia terrível de homofobia… Estou me sentindo literalmente bombardeado de tantas denúncias absurdas e cruéis. Há uns 2 dias me deparei com o assassinato de um jovem de 14 anos que se envolveu com alguns criminosos e foi morto a pauladas em um sitio abandonado. Tem também toda a luta para prender os assassinos de Alexandre Ivo, sem falar do caso do cabeleireiro que teve seu fígado entregue ao cachorro, como faço então para abstrair? Não consigo. Mas isso tem um preço. E estou começando a pagar. Vem uma tristeza que me derruba. Me chuta a cara. A Ammy aqui também não está ajudando em nada. Mas eu paro. Penso que não dá mais pra viver assim, nesse pessimismo inevitável, de quem mora em um País que prefere a omissão do que apoiar uma causa justa. Mas eu preciso viver. Até mesmo para escrever aqui e inspirar tantos jovens que me agradecem por esse blog. Sei hoje que faço uma diferença na vida dessas pessoas, e não é nada justo eu fraquejar. Exijo de vocês que sejam fortes, que mudem o destino de vocês, portanto não posso entregar o jogo. Nem quero, mas o que me incomoda é que estou deixando de viver as coisas boas da vida para focar nas tragédias. Vou mudar isso esse ano. Ahhh, vou!

Vamos juntos? Que tal todos nós celebrarmos de novo a alegria de ser gay? Gay que é sinônimo de alegria, esse tem que ser nosso destino. Chega de dar ouvidos aos Malafaias, Bolsonaros e cia. Somos ótimos em ignorar opiniões alheias. Fazemos isso desde pequenos, até mesmo como uma forma de sobrevivência. Quantas vezes, quando crianças, ouvimos que era errado ser gay, que viados eram uma coisa feia, que homem tem que ser macho e ignoramos solenemente? Vamos voltar a fazer isso? Podem falar, espernear, URRAR, não vou mais ouvir. Serei aquela criança que encontra sua força ao ignorar esse tipo de comentário. Ignorar não signifa ser indiferente. Ignoro os insultos vazios, mas ajo estratégicamente nos pontos fundamentais que trazem mudanças concretas. Estou cansado de discutir com fundamentalistas, não há diálogo, preciso agir para que esses caiam, simples assim. Enquanto isso, vou viver, vou namorar, vou curtir, estou precisando desesperadamente disso. Não vou me alienar, mas vou me dar ao luxo de gostar da vida e de tudo de bom que ela me oferece. Então, está decretado. Hora de viver um pouquinho mais. Uma viagem com uma companhia boa, umas férias… U-la-laaaaa…Lá vou eu!

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17 Responses to Lembrando de Viver

  1. Felipe says:

    Não é fácil ser julgado, recriminado, apontado como doente ou bandido. Às vezes dói muito.

  2. Excelente, Mauricio. Eu to sempre aqui no no teu blog e acompanho sempre as discussões no facebook, admiro muito a sua militancia e isso é algo que inspira a nós, jovens, a não desistir de nós mesmos. O conselho para 2012 é excelente. E é o que precisamos fazer mesmo. Espero ter boas notícias este ano para repassar a todos.

  3. Thiago says:

    Uma das piores coisas que veio com a internet é o fato de sermos bombardeados por notícias ruins. Tem dias que parece que tudo está dando errado no mundo e, as vezes, a nossa vida também não está indo muito bem, bate uma depressão…
    Por isso que eu cheguei na mesma conclusão que você: é preciso valorizar e compartilhar os nossos momentos de felicidade pra que possamos ter fé nas nossas vidas.

  4. Mauro says:

    Adorei ler esta postagem.
    Este caminho de um olhar focado no que acontece de ruim pode nos dar a impressão de que o mundo está caindo, e ele não está. Existem muitas coisas ruins, mas uma proporção bem maior de coisas boas. A questão é que o ruim nos impacta muito mais. Precisamos treinar o nosso olhar.
    Sempre tomo como exemplo o que as mulheres fizeram. Sem muito barulho, enquanto diziam que elas não sabiam dirigir, foram lá, compraram seus carros e aprenderam a dirigir. Hoje têm descontos nas seguradoras porque provocam menos acidentes.
    Enquanto diziam que elas eram menos capazes, se dedicaram aos estudos, aprenderam a ter atitude, e hoje têm uma participação expressiva no mundo do trabalho.
    Enquanto diziam que a mulher separada ou mãe solteira era uma perdida, aprenderam a sustentar seus filhos e o seu estilo de vida.
    Há diferenças e injustiças? Sim. Ainda são muitas, mas fizeram e fazem uma revolução silenciosa.
    Conosco a questão é a mesma. É bola pra frente!
    Enquanto falam que somos seres imorais nós podemos construir um estilo de vida que pode ser bem melhor do que o da maioria que segue um script único.
    Enquanto dizem que todos têm que casar e ter filhos, podemos optar por outras coisas, e desfrutar dos prazeres que isto proporciona. E se quisermos, podemos também casar e ter filhos, inclusive com proteção legal para estas relações.
    Não é fechar os olhos para o que acontece, mas é sair por ai vivendo. Quando perceberem, enquanto eles ficam parados falando, nós já estaremos lá na frente.

  5. luizbh says:

    É meus queridos!!! Não quero jogar água fria na cara de voces nao, mas eu continuo totalmente sem esperanças sobre o dia da nossa libertação. Ontem em um jantar de família, onde eu estava comemorando meus 47 anos de idade, meu sobrinho mais velho me perguntou o que eu achava da Marina Silva. Eu respondi: Bom, não gosto dela por que além de ela ser evangélica, ela também é homofóbica. Meu sobrinho mais novo que estava ouvindo a conversa pergunta logo em seguida: Uai tio!!! Ela é Gay?? Eu respondi: Não!! A pessoa homofóbica é aquela que odeia os gays!!! Ai, então para tristeza minha ele retrucou: Então eu também sou homofóbico, por que eu ODEIO os gays!!! Então eu disse: odiar é sempre horrível, mas odiar uma coisa que você não conhece é pior ainda, mas vc deve ter os seus motivos… Ai mudei de assunto para não polemizar mais ainda. Então pergunto para vocês: Como pode uma criaça de 7 anos ter este tipo de mentalidade? Como pode um pai, que no caso é meu irmão, criar meus sobrinhos com idéias tão horríveis em relação aos gays, inclusive em relação ao próprio tio deles? Ainda não tenho motivos para ter esperanças.

    • admin says:

      Era o momento de você falar, -Então você tem que odiar, pois se o papai ainda não te contou, eu sou gay!
      Seu irmão é um idiota, só isso. As coisas vão mudar, tem internet, a criançada não vai perpetuar essa visão estúpido dos adultos. Pelo menos é o que eu espero.

      • Mauro says:

        Este é o momento que não podemos deixar passar. É o momento de olhar nos nos olhos do sobrinho e dizer calmamente: Então, você me odeia? Eu também sou gay.” Solte a frase e espere. Deixe o silencio atordoar as pessoas.
        Não é a mesma coisa um discurso politicamente correto ou falar na 3a. pessoa. Garanto que o impacto é totalmente diferente.
        Coragem!!

  6. Igo Araujo says:

    Eu me sinto assim sempre que vejo notícias de gays mortos por serem gays; as idéias estapafúrdias de religiosos acéfalos que são incapazes de pensar sozinhos, precisam buscar apoio mental num livro que já não se aplica mais ao contexto em q vivemos! Me irrita ainda mais saber que tem há gente que dá ouvido a esse tipo de exploração intelectual. A impressão que tenho é que não vale a pena lutar ou que cedo ou tarde eles ganharão! É opressão constante! É insanidade constante! Mas aí paro pra pensar no quanto já se conquistou até o momento, o que a mentalidade já avançou e que se os atritos estão tão intensos é porque estamos chegando a algum lugar. Como disse o Harvey Dent em Batman, The Dark Knight: “a noite é mais escura logo antes do amanhecer”.

  7. Paulo Ulisses says:

    O Brasil me faz pensar no porquê a maioria de nós não é patriota nem nacionalista, é exatamente porque aqui se permite os maiores absurdos e o estado que deveria ser laico é determinado pelas bancadas evangélico-fundamentalistas do Congresso… Simples: enquanto não tivermos três Martas Suplicys pra cada Myrian Rios o negócio não vai p/ frente, mas tb não esmoreço nem baixo guarda.

  8. Luizbh says:

    Meus queridos!! Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo como deseja o poeta:

    Receita de Ano Novo

    Carlos Drumond de Andrade

    Para vocêganhar belíssimo Ano Novo
    cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
    (mal vivido ou talvez sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
    novo
    até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?).
    Não precisa fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar de arrependido
    pelas besteiras consumadas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto da esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.
    Para ganhar um ano-novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre.

  9. Henrique says:

    Uma frase que eu ouvi em uma série de temática gay: “Há dois tipos de hétero: os que te odeiam na sua frente e os que te odeiam pelas costas.”
    Concorda? Eu sinceramente estou começando a acreditar nisso.

    Desculpe dar uma resposta tão desanimadora.

    • admin says:

      Acho uma boa frase de impacto, do “Queer as Folk”… Bryan Kiney; Mas não concordo não, acho até que no Brasil sim, mas tem muitos países, como a Holanda, que essa realidade muda a cada dia.

  10. Cara Comum says:

    Bom, concordo com vc! A gente tem que se lembrar de viver também! Então, vivamos!

  11. Leonardo says:

    Olá, acho que a sociedade ainda está muito preconceituosa. Bem, mas queria falar de mim aqui. Era casado ha 12 anos, vivia bem com a mulher, mas como? Sempre tive desejos homosexuais, mas que me segurava para tal. Saia as vezes com homens e chegava em casa com nojo de mim. Casado há 12 anos me apaixonei por um colega de academia, viviamos saindo e indo pra motel juntos e escondidos. Minha esposa soube depois por uma amiga minha que eu tanto confiava. Essa desgraçada , de minha “amiga’ contou. Depois de tudo, separei,sofri,sofro. Cai numa depressão tao grande que tentei suicidio por duas vezes. Meu irmao soube e me dau apoio em tudo, mas confesso que ainda teho medo de sair as ruas .Por saber que agora todos estao sabendo. Hoje ando com anti depressivos, por que foi um choque grande pra mim minha separação, afinal a amava ,mesmo sendo gay a amava. E ainda tenho uma linda filha, que tbm amo demais. Enfim,queria que alguem me desse um apoio moral, pq tenho ainda vergonha disso. Nao sou preconceituoso, mas sei que enfrentarei coisas ruins ainda pior na minha situação pq minha esposa nao aceita como a enganei esse tempo todo. Obg auqui e um desabafo que precisava falar.

    • admin says:

      Querido, você imagina o quanto me identifico com a sua história, né? A diferença é que eu estava pronto pra sair do armário, e você foi brutalmente catapultado para fora. E isso, ao meu ver, nos fez ir por caminhos opostos. Como eu estava preparado pra isso, almejava, queria estar livre, fui direto pro orgulho de ser o que sou. Já no seu caso, a primeira reação foi se fechar e se culpar. Essa culpa é um processo. E como você não passou o devido tempo nela, não houve o auto perdão necessário para se atingir o orgulho. Deu pra entender? Até eu ter a coragem de contar pra minha ex mulher, eu tive que passar por esse mesmo processo. Ela não foi traída pelo meu desejo, eu o compartilhei e trabalhamos juntos a minha “redenção” e aceitação até a hora do divórcio. Que mesmo assim não foi nada fácil. Meu conselho prático é o seguinte. Não se culpe! Pense que no final isso foi positivo, pois agora você está livre pra ser o que você é. Quanto aos vizinhos, literalmente FODAM-SE! Isso pra mim nunca foi uma questão. Cago pra opinião alheia. Trabalhe no seu relacionamento com sua filha. Se precisar lute na justiça, mas não deixe o ódio da sua ex mulher te separar da sua cria. VOCÊ TEM DIREITOS LEGAIS! Busque-os! E por fim, não tente tirar mais sua vida. Busque grupos de apoio, existe um chamado “It Gets Better” (As Coisas Melhoram). E realmente melhoram, veja meu caso, hoje sou super feliz, moro com meu filho que está com 23 anos, nos respeitamos muito, estou casado com um homem maravilhoso há seis anos, e não poderia estar mais feliz com minha vida. E não pense que não tive pensamentos suicidas na minha vida, porque tive sim, mas tudo durante o processo de aceitação, jamais depois que fiz a transição pro orgulho. Deixe que falem que você não tem do que se orgulhar, que isso de ter orgulho de ser gay é o mesmo que ter orgulho de ser hetero, e o monte de baboseira que vomitam por aí. Só nós gays sabemos que cada um de nós é um sobrevivente de uma guerra interna e externa, e só nós. temos a dimensão do que isso significa. Seja forte e volte sempre.

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