AIDS, a dúvida é que mata.

Quantas noites repousei minha cabeça no travesseiro, e por alguns instantes os demônios da dúvida permearam meus pensamentos? Quantos momentos, durante o dia, fui acometido pelo fantasma do não saber? Incontáveis vezes, gelei ao pensar na possibilidade de estar infectado. Na sentença de morte que me seria imposta caso estivesse. O horror da possibilidade em si,  já era apavorante o suficiente. O medo era tanto, que aos 18 anos desisti de ser gay sem ao menos ter começado direito. Eram os anos 80, ninguém sabia direito de onde vinha essa doença letal e cruel. Na dúvida, me fechei, tranquei o armário e permaneci por lá mais 12 anos.

O medo era tanto que, adolescente aos 18, no auge do bombardeio midiático sobre a AIDS, tive que parar e fazer uma auto-análise de todo meu percurso sexual até então. E pasmem, para meu susto, eu já havia saído com 38 caras. Meu choque foi tamanho que não saí com mais nenhum por 12 anos, e ainda casei para não correr risco mesmo. Claro, que o medo da AIDS não foi a única razão do meu “enrustimento”, mas deve ter sido a principal. Lembro que uma vez fui a um consultório e soube que na sala de espera havia um paciente com AIDS, tenho até vergonha de relatar o que ocorreu, mas é necessário: evitei respirar perto dele ao ponto de quase desmaiar. A falta de informação da época nos fazia crer, como li em uma matéria de revista, que a AIDS poderia ser algo que se pegava no lubrificante usado na penetração sexual! Era muita desinformação mesmo. Na dúvida, fui criando uma espécie de pânico dessa doença. 30 anos se passaram, muitos avanços foram conquistados, e hoje, não faz o menor sentido alguém ter essas reações que eu acabei de descrever. Ainda bem, né? Era aprisionante. Me lembro bem de rezar todas as noites para se alcançar uma cura, pois eu não aguentava mais essa abstinência louca. Me forcei a uma vida heterossexual aprisionante e tão letal ao espírito que de certa forma foi pior do que ter me contaminado pela AIDS. Se bem que tenho um amigo que diz que me salvou, e que foi justamente por ele ter dito na época que eu não poderia ser gay e o fato de eu ter ficado 10 anos me questionando isso, que eu estava vivo. Talvez. Quem sabe…

O que importa é que a AIDS hoje, de uma doença necessariamente fatal, está se tornando uma doença crônica, e muita gente vive perfeitamente bem com ela. O tal demônio está, de certa forma, mais manso, mas não podemos baixar a guarda. Tem muita batalha pela frente e a prevenção ainda é o melhor remédio. Saber que não se tem AIDS é libertador e nos provoca uma maior disciplina sexual. O que eu penso sempre é: se não peguei, agora então que não vou pegar mesmo. Depois do primeiro exame você relaxa. A partir dele vira uma coisa rotineira a checagem anual. Lembro bem o quanto sofri para abrir o envelope com meu primeiríssimo exame de HIV. Custei a entender, pois não vem escrito positivo ou negativo, vem “não reagente”. E eu sabia lá o que era isso? Na hora você gela, sua vida sexual passa como um filme na sua frente. Deve ser igual quando você morre, que dizem que passa um filme da sua vida toda na hora, pois bem, esse primeiro exame passou mesmo um filme, mas era pornô!  E você? Sabe como é o final do seu filme? 

 

Feliz dia 1 de Dezembro: Dia Internacional da Luta Contra a AIDS!

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3 Responses to AIDS, a dúvida é que mata.

  1. Foxx says:

    deixa eu te contar que eu conheci um menino em Belo Horizonte que ele estava se descobrindo gay. E ele passou pela mesma fobia. Ele fazia sexo com alguém e no outro dia tinha crises de pânico achando que havia sido contaminado pq tocou na camisinha. As coisas ainda não mudaram tanto, acredite em mim.

    PS: eu que ensinei a ele como se pegava a doença, hoje ele melhorou.

  2. figado says:

    Adorei esta publicacao, estou seguindo este site agora! Parabens!!

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