Eu nasci gay!

 

Papai Gay na infância.

Papai Gay na infância.

 

Existe muita controvérsia por aí sobre a origem da homossexualidade. Muitos dizem que é uma opção, outros juram que é genético, alguns acham que é pouca vergonha mesmo, outros tantos não fazem a menor ideia de onde vem esse troço. Vou dar o meu depoimento. Tentarei ser o mais objetivo possível. Desde quando me lembro, dos meus mais remotos sentimentos sexuais, eles eram voltados para o mesmo sexo. Lembro-me de quando tinha por volta dos seis, sete anos, e já era apaixonado pelo meu melhor amigo. Admirava seu rosto forte, que eu considerava mais masculino que o meu, seu nariz, seu jeito masculino de andar, de jogar bola, tudo nele me atraia, TUDO. Eu era uma criança, ele também, mas a memória é vívida e cristalina, eu já sentia tesão por esse garoto. Não sabia o que era, mas eu sentia, e era muito forte. Queria vê-lo trocar de roupa, beber água, jogar video game, eu babava por ele. Acho que ele jamais desconfiou, mas eu, hoje, sei  que o amava. Amor de criança, mas AMOR. Olha que MERDA. Se eu fosse uma menina, poderia ter vivido esse amorzinho de criança saudavelmente pra toda a sociedade. Quantas meninas aos 7 anos se dizem apaixonadas pelos coleguinhas e TODOS acham bonitinho? Nós gays ainda não podemos isso. Temos que ser crianças com CULPA. Culpa de amar, culpa de sentirmos amor por outro, culpa de sermos o que nascemos. Isso é MUITO triste. Posso dizer que tive uma infância demasiadamente triste por ser gay.

 

Daí em diante, a coisa sempre se repetia. Eu cresci, mudei, aos 8 fui para a Inglaterra, e enquanto uma garotinha da vizinhança declaradamente apaixonada por mim chorava, eu chorava pela perda do meu grande amor de infância, meu melhor amigo. A diferença é que ela era essa menina que pode abrir seu coração para o mundo. A família dela a consolava, mas eu chorava calado, quieto, com culpa, a perda do meu amor de infância. Isso é justo? Ou tem algo de muito errado na forma que criamos nossas crianças? A criação de uma criança gay é de uma crueldade infinita. De uma solidão imensurável. Somos criados em moldes ultrapassados e heterocêntricos. Se não mudarmos isso, o ciclo vai se perpetuar e mais crianças sofrerão caladas, solitárias e incompreendidas. Nesse momento, ao escrever essas frases, crianças homossexuais estão sofrendo, por amarem, por estarem presas ao que são, e pior, por acharem que são aberrações. São crianças, apenas isso. Que precisam de compreensão dos pais, dos amigos, da sociedade, da vida. Será tão difícil assim percebermos que ao nos depararmos com uma criança gay não devemos “consertá-las” e sim, entendê-las? Será mesmo que precisamos ter medo da homossexualidade? Se meus pais, desde cedo, pois haviam muitos sinais da minha homossexualidade, tivessem me criado para o universo gay, com certeza muito sofrimento me teriam poupado.

 

Chego em um ponto da minha vida que pouco me importo se nasci gay ou se foi uma opção, quero que literalmente SE FODA esse debate. O que interessa é que sou gay e sempre fui. Sempre desejei, sempre me excitei, sempre quis estar com alguém do mesmo sexo. E daí? A questão agora é melhorar a vida de nossas crianças. Eu adoraria ter acesso a esse meu texto na minha infância. Teria CERTEZA que não sou esquisito, anormal, um bicho. Saberia que era só uma criança em busca da sua felicidade, em busca de aceitação e que jamais iria ganhar uma luta contra mim mesmo. Saberia que nem preciso entrar nessa luta, saberia até que nem se tratava de uma luta e sim de um preconceito social que em nada tem a ver com minha sexualidade. Que gostar do mesmo sexo é algo que irá me acompanhar pelo resto da minha vida e que isso pode ser uma bela de uma benção e jamais uma condenação. Sou hoje abençoado por ser gay, eu e todas as crianças gays do Universo. O drama é que eu sei disso e elas AINDA não!

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10 Responses to Eu nasci gay!

  1. Mauro says:

    Algumas coisas não merecem desperdício de tempo buscando explicações. Simples assim: uns gostam de morango, outros não. Precisa explicar?
    Sei que a sexualidade humana está permeada de valores, controles e equívocos. É tabu, e em nome dele, muitos sofrem.
    Quanto ao artigo, acho realmente que é cruel a solidão que uma criança vive quando se sente atraída pelo mesmo sexo.
    Meus pais me proveram dos recursos financeiros, educacionais, mas deixaram um vácuo no apoio e afeto que eu precisava. A conseqüência é triste: pra me proteger, criei uma distância emocional que não foi resgatada até hoje, e sinceramente, acho que não será.
    Respeito-os, faço o que deve ser feito, reconheço que em vários aspectos foram bons para mim, mas não sinto por eles o que eu acho que devia sentir. É uma relação fria. Emocionalmente eu não consigo ir adiante com eles, e neste momento, nem tenho disposição para isso.
    Uma relação familiar poderia ser melhor, não é mesmo?

    • admin says:

      Olha, eu acredito que consegui resgatar com meus pais, mas com meu irmão não. O segredo é manter um diálogo bem aberto, caso eles lhe deem essa abertura. Senão, deixa pra lá e vai curtir sua vida. Com apoio vale apena, mas com crítica, melhor ficar sem o apoio. Enfim, obrigado pela visita e volte sempre, seu comentário foi bem construtivo.

  2. Foxx says:

    como explica q nascemos assim?

  3. Tales says:

    O teu relato é vida de muitas pessoas. Eu não amei o coleguinha ou o vizinho, mas sentia tesão e não sabia o que era isso. Achava que era só em casa, que na rua eu seria normal. Normal eu sabia como era ser. Ser eu, por outro lado, era bem difícil. Por um lado, acho até que concordo com aquele It Gets Better. Realmente fica melhor, ao menos para algumas pessoas. Só que o mundo não vai ser um lugar lá muito legal enquanto não for para todas.

  4. Henrique says:

    Pois é, eu também penso assim, que as crianças gays deveriam ter o direito de viverem livres de pré-conceitos e sem qualquer tipo de culpa. Eu tenho o desejo de fazer mais pela comunidade LGBT, mas sabe, eu não sei como fazê-lo. Não tenho ideia de como posso ajudar – na prática – na luta pelos direitos igualitários. Creio que ficar reclamando no facebook da heteronormatividade e do quanto ela nos afeta, não tenha efeitos práticos que ajudem na luta pela igualdade. Alguma ideia?

    • admin says:

      Eu, ao contrário de alguns ativistas, acho que reclamar no facebook é ÓTIMO, pois obriga seus amigos a se envolver mais em uma causa que na maioria das vezes nem é deles. O que você pode fazer é votar com consciência, acompanhar quem faz algo por nós e divulgar, nem que seja só nas redes sociais. Faça videos, escreva blogs, vá a manifestações… Tem muita coisa pra ajudar.

  5. Vinícius - aserdito.blogspot.com says:

    Também me canso dessa coisa de ficar procurando a explicação para os fatos. Claro, algumas vezes é extremamente importante, mas vamos lá: se a pessoa é gay, sério que é importante saber porque ela é assim?

    Isso é coisa pros cientistas descobrirem e contar pra gente! O fato de nascer gay ou “adquirir” pouco importa, pois nada vai mudar.

    Mas, cá entre nós, eu acho que se nasce assim! Eu, pelo menos, me lembro desde pequeninho. Nasci pra ser gay e que bom que sou assim e muito feliz com a minha condição!

  6. Paulo says:

    Olá Mau, tudo bem?
    Nas minhas várias pesquisas acabei achando seu blog, e realmente é o que trata de tudo mais naturalmente. Sou casado, tenho um filho de 5 anos, e eu e minha esposa já sabemos que ele é gay. Apesar dos vários comentários do tipo “imagina, ele ainda é criança…” ou “ele é mais sensível” nós, como pais já sabemos a verdade. No seu texto, você indica que seus pais tivessem lhe criado para o universo gay, teriam lhe poupado do sofrimento. Como posso ajudar meu filho? Como posso poupar ele desse sofrimento? O posso fazer para tornar sua vida melhor no futuro?
    Me desculpe me alongar no comentário, mas realmente gostaria muito de saber lidar melhor com a situação.
    Um abraço e obrigado.

    • admin says:

      Ótimo o seu comentário, vou tentar ajudar de uma forma que eu imagino deveria ter sido a minha infância e não foi. Bom, primeiro, se ele tem irmãos, não deixe jamais que eles o xinguem de bichinha nem nada disso. Isso destrói a auto estima de qualquer um. Meu pai, por exemplo, nunca conversou nada disso comigo, até eu ter a iniciativa só aos 18 anos, e mesmo assim, quando o procurei foi para me ajudar a transar com mulheres. Foi horrível ter que esconder a infância e a juventude inteira o que eu era. Mas, vamos lá. O que você pode fazer… Difícil, heim. Mas, o principal você já fez. Já reconheceu que ele é gay. Não que ele será. Mas que é. Isso é fantástico. Só de você não querer mudar isso, já é um grande passo. Mostre exemplos de casais gays que dão certo. Ache gays bem sucedidos e elogie. Fale sempre que vocês não tem nada contra. Essas coisas. Só de você ter procurado o meu blog, e ter me contactado, já imagino que será um ótimo pai para essa criança. Siga seu coração e leia muito sobre o assunto. Leia meu blog todo. Tem muita coisa legal. Um abraço Papai Gay

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