Minha experiência com a “Cura Gay”

É isso mesmo gente. EU também já cai nessa de “cura gay”. Tá certo que foi há muitos anos, que eu era apenas um adolescente, que fui meio que induzido a isso, mas eu tentei, ou melhor dizendo, tentaram me “curar”. Enfim, acho melhor começar do começo.

Por volta dos meus 18 anos, no auge da epidemia da AIDS, comecei a questionar se eu seria mesmo gay, ou até mesmo, se eu QUERIA ser gay. Cheguei à conclusão mais covarde, que foi a de que, não, eu não queria ser gay. Achei uma brecha, ou quem sabe, meu pai achou, e me fez crer que eu é quem estava achando, e consegui introduzir o assunto em um dos muitos papos que tínhamos ao cair da noite. De alguma forma, que não me lembro exatamente, relatei a ele que já havia experimentado transar com homem, e que, apesar de namorar muitas meninas, nunca havia finalizado a transa com nenhuma delas. E que eu achava isso estranho e queria inverter isso. Eu queria conseguir. Por quê? Eu não sei dizer. Talvez para me encaixar aos moldes sociais, talvez por ego, talvez por achar que não pegaria uma doença, sei lá. Conversa pra cá, desabafo pra lá, e ele sugere que eu transe com uma das minhas melhores amigas. Que eu deveria contar a ela da minha virgindade, e como ela era mais experiente, me ensinaria o caminho das pedras. Dito e feito. Arrumei as chaves do apartamento da minha avó, e quando ela não estava, lá estávamos nós. Dois adolescentes, cheios de hormônios e um desejo sexual que só se tem nessa idade. Levou uns 2 dias pra coisa acontecer naturalmente, e quando aconteceu, foi uma das melhores experiências da minha vida. Cheguei ao orgasmo 7 vezes e jamais consegui bater esse record. Estava resolvido. Não seria mais gay. Nunca havia sido.

Doce ilusão essa. Mas que durou 10 anos da minha vida. Nesse período fiz de tudo, muito esporte, coisas de macho, do tipo: Jiu Jitsu, kaiaki, windsurf, ski, etc. Não sei bem se consegui em algum momento acreditar nessa cura, mas com certeza, enganei muita gente, inclusive a mim. No começo, quando eu ainda estava tentando transar com essa garota que meu pai havia sugerido, tive um período, que durou mais ou menos 2 semanas, em que ninguém conseguia conversar comigo. Catapultado por esses papos com meu pai, ou quem sabe até induzido por ele, em uma manobra para me heteronormatizar, jamais saberei, pois ele já faleceu. fiquei em um estado catatônico de reflexão, parecendo até meio autista, mas me lembro perfeitamente de tudo que passou na minha cabeça. Fiz uma reflexão de tudo que havia acontecido sexualmente na minha vida até então, tentando de forma desesperada fazer algum sentido. Fiz uma lista na minha cabeça de todos os encontros sexuais da minha vida. Antes mesmo de transar com uma mulher sequer, eu já havia, para meu espanto, “transado” com 38 homens. Eu tomei um susto quando fiz essa conta aos 18 anos, pois cada um desses episódios foi regado a muito álcool e cercado de um total anonimato que me bloqueava inclusive de lembrar da sua ocorrência. Era tanta culpa em cada um desses encontros que eu esquecia imediatamente após terem acontecido. E foi nessas 2 semanas que tudo veio à tona e consegui finalmente juntar os pedaços do meu passado em um só cronograma. Me apavorei. Cortei minha homossexualidade nesse momento! Não seria mais gay de jeito nenhum.

Cheguei a acreditar que estava curado, mas o que eu fiz foi  mentir para mim e para o mundo. Tentei de tudo. Até um psicólogo, meu pai arrumou pra mim. Mas eu, muito esperto, ao chegar ao consultório, já bem desconfiado daquilo tudo, indaguei o valor da consulta e comecei o meu relato. Como na época meu pai era milionário, eu já era bem cascudo contra interesseiros em geral e testava todos eles. No caso do psicólogo, peguei ele quando ao final da consulta fingi não lembrar o preço e perguntei de novo. Obviamente, após conhecer nossa situação financeira, seu preço inflacionou um pouco e eu pude ter certeza do charlatanismo dele. Mas, o que o eliminou de vez da minha vida foi quando ao final lhe perguntei se caso eu quisesse continuar a sair com homens, qual seria o problema disso. E ele sem pestanejar afirmou que eu não estaria curado. Nunca mais voltei.

Depois dessa namorada que meu pai sugeriu, tive poucas outras e logo conheci minha ex-mulher. Começavam ai meus 10 anos de jejum. A parte boa é que dessa relação nasceu meu filho. Só isso já vale qualquer sacrifício. Não sei se teria procriado se tivesse me assumido aos 18. Por esse ângulo, e só por isso, não me arrependo de tantos anos no armário. Mas que a vida fora dele é bem mais a minha cara, isso não tenho dúvida. Amo a liberdade que conquistei, e acho que só tenho tanta vontade de comunicar o que vivi porque estive reprimido por tanto tempo. Só por não ter vivido plenamente por 10 anos, criei essa gana, essa paixão, de ser o mais fiel a mim possível. Sou gay, e por tudo que passei, me orgulho muito disso. Não é exatamente o fato de ser gay que me dá orgulho, e sim o de ter lutado contra tudo e todos para poder sê-lo.

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4 Responses to Minha experiência com a “Cura Gay”

  1. carlos says:

    E até hoje as pessoas falam dessa maldita cura gay apesar dos avanços ainda falta muito brother para conseguirmos nossa total liberdade e acabar com o preconceito. Contei para minha mãe da minha bissexualidade a primeira coisa que ela me pediu foi um exame de hiv , vc não sabe o quanto isso fere uma pessoa e principalmente um filho e o pior é que a maioria da população pensa ainda dessa forma , quanta ignorância e preconceito. Os nossos direitos estão avançando mas parece que a mentalidade das pessoas está caminhando de forma lenta esse vai ser nossa última barreira.

    • admin says:

      É… Um passo de cada vez. Mas, pedir um exame de HIV sua mãe se superou! Tanta coisa pra ela dizer de bacana, pra te dar força, e a primeira coisa é que você pode estar doente, como se fosse exclusividade dos gays essa doença. O pior é que esse é um pensamento comum.

  2. Foxx says:

    e como vc saiu desse casamento, amigo?

    • admin says:

      Isso dá um post novo. Boa dica. rs Fica ligado no blog que vou postar com certeza esse episódio… Um episódio de 3 anos… rs

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