Fugi do Brasil, e agora?

LT3A9501xmenorQuem me conhece sabe que a coisa que eu mais queria era picar a mula do Brasil há anos, talvez décadas, ou até mesmo desde que me dei por gente. Aos 8 anos meus pais se mudaram pra Inglaterra para passarmos 2 anos por lá. Lembro bem que não queria ficar longe dos meus amigos e chorei um bocado no avião. Moramos em uma cidade minúscula no litoral sul da ilha, uma tal de Lee-on-the-Solent, que ninguém jamais ouviu falar, nem mesmo os ingleses que cruzei após a minha volta. Enfim, lá estava eu, no dia seguinte à minha chegada, no colégio, sem entender patavinas de nenhuma matéria, a não ser a matemática, que pra todo canto é a mesma. Acho que levei no máximo 6 meses pra virar fluente (claro que com um vocabulário limitado à idade). Lembro que a adaptação foi bem tranquila, como diz minha mãe: é fácil se acostumar com coisa boa. Não havia miséria, fome ao meu redor, e violência só quando algum moleque, no caso meu irmão, resolvia brigar com alguém, ele sempre foi meio arruaceiro. Fora isso a cidade era mesmo um paraíso no quesito tranquilidade. Mas, um belo dia chegou a hora de empacotar nossas malas e voltar ao Brasil. Já não sabia mais o que esperar dessa volta pois eu já sabia que eu era gay e mudanças me atraíam, eram uma espécie de fuga. Sim, aos 9 anos eu já tinha certeza que era gay. Já expliquei em outros posts minha atração pelos amigos fardados do meu pai e a fixação por uma revista de homens pelados da minha empregada. Nem sei se o fato de eu ser gay já pesava nessa mudança, mas eu sei que a vontade de sempre partir tem muito a ver com a não aceitação da minha sexualidade. Eu sempre queria mudar de lugar. Bom, o dia chegou e partimos. Eu tinha feito um único amigo no colégio, eu era tímido demais, muito introspectivo talvez, o contrário do que sou hoje. Então, foi mais fácil a partida de volta. Até chegar na Avenida Brasil.

Nosso carro, não lembro se pegamos um taxi ou alguém nos buscou, mas eu lembro de ter ficado horrorizado com a sujeira e a pobreza que me rodeava. Desse instante em diante eu vi a burrice que estávamos fazendo em retornar ao brasil. Tudo era muito desorganizado, sujo, pobre. Tive uma sensação que me acompanhou muito tempo, que foi a de estar regredindo, de estar no lugar errado, de não pertencimento. A partir daí, comecei a devorar a cultura pop americana, talvez até como uma forma de continuar o que a Inglaterra havia começado. Aos 14 anos fui pra Disney e pude confirmar que realmente o Brasil era um país extremamente atrasado. Passei a odiar samba, carnaval, futebol, tudo que me lembrasse o Brasil e sua cultura. Só usava marca americana e viajava todo ano pra fazer compras nos EUA. Me tornei um aficionado por tudo que vinha da America: Guess, Reebok, Oakley, queria tudo. Até que fui fazer faculdade em San Diego. Morei por lá uns 5 anos e já nem queria mais voltar. Na época tive o meu filho americano, que mais tarde acabou abrindo as portas para eu estar onde estou agora na America. Estou contando isso tudo pra exemplificar o quanto eu queria morar nos EUA e que não era algo do tipo:”O Brasil está uma merda, vou embora”. Nada disso.

Depois que me formei acabei voltando ao Brasil, mas sempre com aquela sensação de que estava fazendo a coisa errada, a mesma impressão de sujeira e pobreza eu senti nessa segunda volta. Mas, me acostumei com a ideia e acabei ficando 20 anos no brasil. Nesse período, cheguei a me adaptar mais à cultura brasileira. Entrei pro teatro, passei a ouvir MPB, gostar de carnaval e aos poucos fui virando um brasileiro típico (só nunca gostei de futebol mesmo). Eu diria que passei a me sentir em casa com a pobreza e tudo, comecei a enxergar nossas dificuldades como sociedade e ter muito mais compaixão com o próximo. Estava me sentindo bem na minha terra. Adaptado mesmo. Estava feliz. Me assumi gay, curti muito, tive vários namorados, casei com alguns e segui a vida. Nem pensava mais em morar fora. Até que a ascensão evangélica começou e eles ocuparam espaço na política. Nossa. Como isso me irritou. Quantos discursos de ódio camuflados de liberdade religiosa invadiram a minha vida. Quantos amigos perdi, pois eles não enxergavam homofobia nesses falsos pastores. Hoje acho até graça quando esses mesmos amigos agora sofrem na pele o preconceito. Sim, porque os evangélicos agora atacam todos que são diferente deles, não mais só os gays. Mas eu avisei, nossa, e como eu avisei. Não teve jeito. Agora temos um presidente evangélico. Os pastores salafrários que nem preciso mencionar mais os nomes estão destilando seu ódio pelo Brasil todo, mais fortes do que nunca. E eu aqui. Nos EUA, vendo tudo de camarote.

Muitas vezes me pego triste, com falta da praia, dos amigos, da cervejinha, um sambinha na Lapa, o pé sujo perto de casa, nada disso tem por aqui. Os americanos trabalham MUITO. Quase não têm tempo de se divertir. Os alugueis são caríssimos, o custo de vida em geral é um absurdo, plano de saúde, faculdade, tudo caro. Mas em compensação, ninguém anda na rua com medo de ser assaltado, todos podem contar com o pronto atendimento da polícia, da emergência (apesar de ser caríssima a ambulância, ela chega em 5 minutos). Apesar de tudo isso, ainda me sinto dividido. Queria meu país de volta, queria ver a religião fora da política, queria ver a justiça funcionar para todos, queria uma polícia que realmente me protegesse, que não me abandonasse à própria sorte. Aqui nos EUA, muita coisa é proibida, os bares fecham às 2 da manhã e todos tem que ir pra casa, pois também é proibido perambular bêbado pelas ruas, chama-se “public intoxication”, e você dorme na cadeia mesmo! Não pode beber na praia, nem frequentar de madrugada. Essas coisas, tiram muito da nossa liberdade, mas talvez seja exatamente por isso que nos sentimos mais seguros. Não sei, fico na dúvida. Às vezes da vontade de mandar tanta regra pra puta que pariu e voltar pro Brasil, mas também não quero mais viver os arrastões e os assaltos no calçadão! Às vezes sinto orgulho de termos faculdades de graça no Brasil, mas lembro que não possuem laboratórios modernos, estádios, não têm esportes, e vivem de greve. Aqui nos EUA todos se endividam muito pra ter um diploma, mas as faculdades são absurdamente bem equipadas. Só estou aqui há 1 ano e meio, acho que estou naquela fase de transição ainda. Se você está pensando que vai se mudar do Brasil e ficar alegre, feliz e contente, se prepare. Nunca ralei tanto, nunca tive tanta preocupação financeira, e pra completar, nunca senti tanta falta das coisas do Brasil. O que isso quer dizer? Não sei ainda. Só sei que a vida é sempre uma busca, o sentimento de incompletude vai persistir, mas talvez isso faça mesmo parte da existência humana.

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One Response to Fugi do Brasil, e agora?

  1. Leon says:

    Boa sorte! Espero ter mais notícias boas no futuro. O Brasil está realmente difícil de suportar.

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